O País de Ricardo Araújo Pereira

Quando, pela manhã, saio de casa com o meu tempo totalmente cronometrado, há apenas dois dados que posso tomar como adquiridos: a certeza de que o autocarro que me interessa apanhar é o 738 com destino à Quinta de Barros e que o rádio do transporte público vai estar sintonizado na Rádio Comercial, porque a religião assim o obriga. Confuso estará o leitor que tem por hábito ouvir a missa na sinfonia ambulante, mas não tema pelos seus pecados, a emissora católica nacional continua a ser a Renascença. Falo de um novo tipo de devoção, a devoção que por estes dias se presta em Portugal a um dos cérebros por excelência do escárnio e comentário jocoso: Ricardo Araújo Pereira.

 

Com maior ou menor pontualidade, quinze minutos depois das oito é a hora a que os fiéis seguidores se preparam para ouvir a “Mixórdia de Temáticas”. Em colaboração com os colegas de estação, Araújo Pereira disserta, inventa, cria e recria situações que afectam o quotidiano dos portugueses. A forma leviana como as aborda leva a que, uma hora depois e posteriormente cerca das sete da tarde, a repetição das peripécias sejam já um dos assuntos mais badalados e discutidos do dia, servindo inúmeras vezes como argumento para aliviar alguma tensão ou como mera forma de gerar o riso entre um grupo de pessoas.

 

O riso, principalmente, mas não só – igualmente o consenso. Não há neste momento, em Portugal, quem não saiba quem é Ricardo Araújo Pereira e, por conseguinte, se torne seu fã, siga a sua lavoura e reproduza as suas opiniões. O que se torna uma tarefa bastante fácil, atendendo a que o seu trabalho se estende a outras áreas, como a escrita (crónica “Boca do Inferno”, na Revista Visão) ou a diversas aparições televisivas, tanto em anúncios publicitários como pelos inúmeros convites que lhe são endereçados dos mais variados programas de comentário e opinião.

 

A sua presença é uma constante. Trabalho não lhe falta. E, há que assumir, ao mesmo ele parece não se negar. É necessária uma grande dose de inspiração, criatividade e muito esforço para conseguir acudir a tantos altares. De forma involuntária, assumo, Ricardo Araújo Pereira é hoje um dos símbolos críticos mais consensuais do nosso país, capaz de se fazer entender em todas as classes sociais e ganhando um peso considerável na formulação da chamada «opinião pública», sendo um dos poucos que torna caduca a expressão «mais vale cair em graça do que ser engraçado» por conseguir açambarcar ambas as qualidades.

 

7 Comments

  1. Teresa Machado

    Ahahaha pois é Chiquinho o RAP está em todo o lado! Mas é um tipo com piada e muito inteligente, se ele quisesse até podia ser algo mais que comediante. O sentido de humor dele até nos faz esquecer algumas das crises que ele tão bem simula na Mixórdia! beijinhos

    • Francisco Costa

      Obrigado minha cara por comentário tão rápido à minha partilha! Como conferenciei com um colega, o post não me saiu tão bem quanto desejava, mas ainda bem que deu para entender a minha ideia – o que nos vale é que o bom humor ainda vai aguentando o barco! beijinhos!

  2. Duarte Meira

    « …. até nos faz esquecer algumas das crises».

    É precisamente o que se pretende.

    Já antigamente os bobos serviam bem aos reis. 

  3. Isabel Metello

    Ohhhhhhhhhh, Francisco, apagou os comentários que escrevi- deixe estar- só comprova a teoria e mais uma- a de que a polilogia não é o seu forte, o que não deixa de ter um piadão!

    • Samuel de Paiva Pires

      Isabel, não só não temos por hábito apagar comentários, como apenas eu e o Nuno o podemos fazer. E de facto recebi a notificação dos seus comentários, pelo que a única explicação que encontro é o ter acontecido alguma coisa ao nível do servidor do Sapo. De qualquer das formas, as nossas desculpas.

  4. Isabel Metello

    Samuel, muito obrigada pela atenção, de facto, muito estranhei porque aqui nunca me tinha acontecido, mas foram 2 apagados foram, mas tb olhe, paciência, não se preocupe, é uma minudência, só reagi porque acredito piamente na Liberdade de Expressão e no debate! Aliás, creio que é a primeira vez que comento algo do Francisco Costa, logo, deve ter sido azar de principiante. Harold Bloom iria achar piada 🙂

    • Francisco Costa

      Cara Isabel, tal como referiu o Samuel, não podendo eu apagar o seu comentário, algo a nível do servidor se deve ter passado. Tente comentar novamente, gostaria de ter acesso ao teor das suas palavras (presumo que críticas em relação ao que escrevi) que certamente poderão gerar uma proveitosa discussão.

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