A balsa dos afogados

Théodore Géricault, A Balsa da Medusa, 1818-1819


Quando Théodore Géricault apresentou no Salon de Paris a famosa pintura A Balsa da Medusa, já sabia de antemão que a obra iria provocar uma acesa polémica. O tema subjacente a este quadro é a famigerada tragédia que vitimou o navio francês Méduse em 1816. Em certa medida, este acidente foi um exemplo clássico do menoscabo a que sempre foi votado o povoléu pelos estratos superiores da sociedade. A tragédia resumiu-se basicamente à condução desastrada do navio por banda do comandante. Num navio que levava ao todo 560 pessoas apenas 15 sobreviveram. À semelhança do que ocorreu com o navio Costa Concordia, o Méduse foi um típico caso de negligência grosseira, em que a corrupção e depravação humanas atingiram o clímax na pessoa do comandante – um Francesco Schettino do século XIX. Ao inverso do que seria expectável, o comandante preocupou-se, sobretudo, em salvar a própria pele, abandonando à desfortuna o resto da tripulação. O solipsismo das chefias foi de tal monta que, contrariando as mais elementares regras do bom senso, optaram por reservar um triste destino aos restantes passageiros, sem cuidar das funestas consequências que adviriam dessa decisão imponderada. Este affaire representou uma forte machadada na credibilidade de uma monarquia recém-restaurada, em que o espavento político era a regra número um.


A menção a este episódio, brilhantemente condensado nas pinceladas geniais de Géricault, tem como motivo o desnorte que vai grassando nas hostes governativas do país. Se há lição que pode ser retirada do episódio em causa é que a soberba e sobranceria que amiúde tomam conta do poder, são o princípio do fim da bonança. O acidente representado no quadro de Géricault é uma metáfora singela da “húbris” descarnada das elites. O caso português é particularmente paradigmático, basta atentar no facto de o comandante deste navio lusitano, em risco de afundamento definitivo, não se preocupar minimamente com o destino dos seus passageiros e tripulação. Com uma população afogada no terrorismo fiscal e no empobrecimento desabrido, os celerados que nos governam apenas cuidam dos seus ínvios interesses, agindo à revelia de uma noção mínima de equidade. Mas, como o próprio caso Méduse ensinou, o egoísmo exarcebado nunca leva a consequências benfazejas a longo prazo. O Governo pode continuar a fazer uso de argumentos ad terrorem para justificar o inaceitável, contudo, o servilismo não é eterno. As novas medidas de austeridade são mais uma pedrada num charco já de si fétido, mas como escreveu Shakespeare no Acto Primeiro de Otelo, “nem todos podemos ser amos e nem todos os amos podem ser fielmente servidos”. A conclusão é fácil de extrair: se esta sanha fiscal suicida continuar, os nossos amos, venais e néscios, correrão o sério risco de deixarem de ser fielmente servidos pelos zelosos e depenados contribuintes.

1 Comment

  1. Paulo Cunha Porto

    Belo paralelismo, Meu Caro João. À minha maneira e agarrando-me a esta em boa hora lembrada jangada, apetece-me até vaticinar que, coerentemente com o canibalismo nela exercitado, a breve trecho se selará a reacção dos Governados contra os presentes governantes:
    VÃO COMÊ-LOS, PARA NÃO SEREM COMIDOS

    Abraço

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