Tal-qualmente!…

No decorrer do ano de 1912, ao justificar a necessidade e utilidade das « Farpas », Ramalho Ortigão escreveu: « eu e alguns do meu tempo entendemos que a sociedade portuguesa encharcava e apodrecia na subserviência de um parlamentarismo quase tão oco como o de agora, e como o de agora exercido por ávidos politiqueiros de ofício, sem nenhum conhecimento dos interesses e das aspirações nacionais, e deliberámos acordar do seu letargo a consciência pública ».

Se surgisse, hoje, alguém que se propusesse continuar essa deliberação, poderia, sem trocar uma palavra sequer, usar este texto como prefácio.

7 Comments

  1. Nuno Castelo-Branco

    Depende. Olhe o tipo de corja que acabaram por trazer ao poder.

    • Cristina Ribeiro

      Nuno, é indesmentível que, com o estéril rotativismo, o parlamentarismo era oco, o que fez com que D. Carlos, como antes D. Pedro V, desprezasse os políticos. 
      Tornou-se mais oco depois, o que levou Ramalho a fazer a ” mea culpa “.

  2. Duarte Meira

    Estimada Cristina Ribeiro:

    Essa de “acordar do seu letargo”… Lembram-me os pios e esperançosos desejos que tantos ainda esperam da mítica “Educação”…

    E lembrou-me uma história que o falecido professor Jorge Borges de Macedo contou no início da conferência que proferiu em Novembro de 1982 no Grémio Literário:

    « E para começar, permitam-me V. Ex.as que lembre uma anedota atribuída a D. João V. Este Rei recebeu, segundo a narrativa, a visita de um ambicioso — é a expressão utilizada — que lhe vinha propor um remédio radical para resolver o problema português e tornar Portugal um país modelo. O Rei ouviu com toda a atenção o que ele lhe dizia e convocou — segundo reza a história — os sábios do reino para lhes perguntar se tal era possível. A fim de esclarecer a proposta, os sábios acharam, também, que deveriam chamar o proponente que a história só identifica por ambicioso. Este manteve o que tinha dito ao Rei e punha como condição única, para resolver o problema nacional… mudar a natureza do povo!

    Em face deste esclarecimento, a junta de sábios reuniu de novo, a pedido do Rei, e considerou que tal condição era absolutamente impossível: só Deus a poderia realizar. D. João V voltou a chamar o ambicioso e disse-lhe: “Não me apresentes a mim o plano, apresenta-o a Deus Nosso Senhor que só Ele poderá satisfazer essa condição que tens como indispensável para que seja posto em prática”. »

  3. Duarte Meira

    A quem interessar, o texto da conferência pode ser lido aqui:

    http://omantodorei.wordpress.com/2012/02/14/a-problematica-monarquica-e-as-crises-nacionais-por-jorge-borges-de-macedo/

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