devemos lembrar-nos que existe para eles uma lei moral mais severa do que para os outros, porque quanto mais elevada é a posição tanto maior é a influência do exemplo». («O Pensamento do Rei D. Pedro V»,de Augusto Reis Machado).
É a morte precoce, com apenas 24 anos, deste homem, a 11 de Novembro de 1861, que Portugal tem a lamentar. Sim, porque o que sobre ele me tem sido dado ler chegou para me convencer de que «O Esperançoso» seria o homem de que o País, naquela conturbada época, necessitava para, nas palavras do Poeta, se ” cumprir Portugal “.
D. Pedro, ao contrário do que lhe dizia o avô, na dita Carta, entendia que ao rei cabia governar, sem se limitar ao acto de reinar, “sempre pensou que sobre ele recaía a responsabilidade de transformar Portugal num País civilizado” e desenvolvido, desconfiando da competência dos políticos, que considerava corruptos, ineficientes e imorais. Como pensava, depois dele, D. Carlos. Como pensa hoje uma grande parte dos portugueses.
Exma. Cristina Ribeiro:
A sua lembrança quase ia acertando no dia aniversário do nascimento d’El-Rei, dia 16 de Setembro! Mas qualquer dia é bom para lembrar quem justíssimamente o merece.
Francisco Fortunato de Quierós, que foi, com Ruben Andresen Leitão, dos que mais e melhor estudaram a vida e obra de D. Pedro V, a certa página da Introdução à edição que fez dos cinco volumes do diário que o Rei manteve entre Outubro de 1855 e Setembro de 1857, não se tem que não exclame: – « Pela nossa parte não sabemos que mais admirar: se o facto de os Livros de Lembranças terem sido escritos por um Rei, se por um Rei que ainda não completara 20 anos! »
Assim é. E eu apostaria que não houve na Europa do século XIX nenhum outro príncipe humanamente e politicamente mais bem preparado para reinar, – e que assim o estivesse… aos 18 anos, quando o nosso ascendeu ao trono. Mas não é só causa de admiração o rei absolutamente dedicado a fazer o melhor pelo seu povo e ao “duro ofício de reinar”(como dizia). É a pessoa humana que foi, e continua a ser absolutamente fascinante.
O velho Herculano, que o conheceu bem, chorou-o no dia do funeral, como toda a nação, chocada por tão grande e tão inesperada infelicidade. Mas somos nós, os portugueses de hoje, que temos ainda mais motivos para o chorar; porque se o Rei D. Pedro V tivesse conseguido dar-nos tudo o que podia e tinha para nos dar… – a nossa História teria mudado completamente. Como a Cristina muito bem sugere no seu texto.
Queira Deus que não fosse por o não merecermos, que nos foi levado tão cedo!
Uma amostra do referido diário e da extraordinária percuciência intelectual do Rei, em registo de 6 de Abril de 1857:
«Um triste estado é aquelle de um povo que não sente o bem que se lhe faz nem o mal moral que deixa fazer; e essa é desgraçadamente a nossa situação. Sêr nos há por ventura dado sahir d’ella? Os acontecimentos no-lo provarão. Até hoje olho para o nosso futuro com o mesmo scepticismo com que olho para o de quasi todos os povos neo-latinos. Vivem, mas vivem mais para serem escravos de déspotas ou partes de mais vastos impérios, de que para gosarem de uma liberdade que não sabem avaliar. »
José Maria de Andrade Ferreira (1823-1875) foi o erudito e estimável autor de um Curso de Literatura Portuguesa, que mereceu ser continuado pelo grande Camilo Castelo Branco.
Logo no mesmo ano do falecimento del-Rei D. Pedro V, em 1851, publicou um livrinho que é um umpressivo e instrutivo retrato do carácter e dos últimos anos do reinado do Rei “Esperançoso” ou “Bem Amado”, que foi comparado a D. Sebastião, como lembra nas últimas páginas.
Tenho muito gosto em deixá-lo aqui aos leitores deste blogue e, sobretudo, aos jovens portugueses curiosos da História que é a sua:
http://archive.org/details/reinadoeultim osm00andr
Queria dizer 1861. A data do trespasse del-Rei foi no dia 11 de Novembro de 1861.