A excepção da Política

Não tenho por norma citar autores marxistas, muito menos intelectuais conotados com a Escola de Frankfurt, todavia a recente leitura das “Teses sobre o conceito da História” de Walter Benjamin, designadamente a Tese VIII, teve o condão de me fazer reflectir sobre o ingente infortúnio que se apossou do continente europeu. A suspensão da democracia sob a égide da nebulosa federalista, bem como o extremo periculoso a que foi levado o “construtivismo” político europeu têm-se traduzido, mormente, na emergência de um estado de excepção permanente, cujas intrépidas arremetidas contra os valores primazes da civilização europeia desaguaram na sacralização de um neo-decisionismo, que nem mesmo Carl Schmitt, nos seus dias mais produtivos, teria sido capaz de cuidar e idear. A tese benjaminiana tem o óbvio mérito de considerar o estado de excepção como um “status” permanente da comunidade política – ainda que essa análise parta da pomposa conceptualização, obviamente discutível, do proletariado como o guardião supremo da dita “tradição dos oprimidos”-, mesmo considerando as veleidades messiânicas embutidas no seu núcleo teórico, cuja destrinça afigura-se da maior relevância para uma reinterpretação do conceito de estado de excepção. A emergência do neo-decisionismo como predicado fundamental da política europeia reconduz-nos à simplicidade desarmante da teoria de Benjamin: a excepcionalidade entendida como o “modus operandi” básico das sociedades contemporâneas. A pronta análise da política europeia permite-nos extrair uma conclusão similar, assente em dois pressupostos intrinsecamente interligados: por um lado, temos a imposição de uma centralização política autoritária completamente insindicável, ao arrepio dos mais lídimos anseios populares, que paulatinamente está a transmudar-se numa suspensão permanente das soberanias nacionais; por outro lado, essa mesma suspensão encontra-se revestida de uma componente altamente nociva, traduzida no poderoso bloqueio institucional produzido no seio das democracias nacionais. É difícil conjecturar qual será o desfecho desta “weltanschauung” cujos contornos só agora começam a ser devidamente identificados, contudo, é possível afiançar, com algum grau de certeza, que as engenharias políticas europeias, incônscias como são, estão fadadas a um fracasso estrepitoso.

1 Comment

  1. Duarte Meira

    «É difícil conjecturar qual será o desfecho…»

    Caro João Pinto Bastos:

    O seu diagnóstico está perfeito. Quanto ao prognóstico, permita-me dizer-lhe que não é difícil conjecturar. – Imagine uma síntese do 1984 de Orwell e do Mundo Novo de Huxley. Eis que está a armar-se  na UE (processo que se apressará com a entrada da Rússia); nos Norte-América; na China (aqui o processo já está, como é de esperara mais adiantado, mas poderá trazer alguns reajustamentos surpreendentes). É o trilatreal condomínio de governo mundial, em formação, e que teremos depois por décadas a assegurara a “paz” num mundo.

    Meu caro, temos que nos preparar para guerras mais terríveis do que as que a “política” nos deu em espectáculo num passado que passou. E o ao pé do que nos espera, os regimes totalitários e policiários dos socialismos nazi e comunista serão com tentativas incipientes de primitivos.

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