A “langue de bois” dos eunucos regimentais

 John Martin, The Great Day of His Wrath, 1851-1853

 

 A fronda que tem vindo a formar-se nos últimos dias, nos media e na chamada “vox populi”, vive, em grande medida, das perorações tacanhas de meia dúzia de prebostes encartados que fizeram o grosso das suas carreiras à sombra do estadão. A burguesiazinha lisboeta que vive acomodada no recosto confortável do Estado começa, por fim, a sentir os efeitos de uma crise originada pela sua cupidez endémica. O mais curioso no meio disto tudo – ou não – é constatar que o nefelibatismo das elites políticas e económicas é partilhado pelo povoléu que, entre ameaças de manifestações e proclamações altissonantes orquestradas pelos bandos políticos do costume – sem esquecer, outrossim, a grande maioria silenciosa que viveu empestada no crédito e na supina crença de que o bem-estar carreado pelos dinheiros europeus seria eterno -, continua a viver na ilusão de que o ciclo pretérito, encerrado com a gestão ruinosa de Sócrates, revivificar-se-á num futuro não muito longínquo. De facto, os portugueses têm uma tendência incurável para o cultivo de apetites auto-destrutivos. As nossas maleitas colectivas são, mais do que um reflexo piedoso da nossa má organização congénita, a prova mais evidente da nossa irreformabilidade. John Martin revelou-se bastante profético na inspiração que o guindou a pintar o seu famoso “The Great Day of His Wrath”: na verdade, o crescimento desmesurado das sociedades humanas, sem que haja o devido acompanhamento por uma sólida base de sustentação, termina sempre num declínio retumbante de proporções bíblicas. Portugal é a prova cabal desse facto.

3 Comments

  1. Miguel C.B.

    Curiosa coincidência de pontos de vista. O que escrevi ontem também é visto pelo caro Pinto Bastos. Aqui:  http://combustoes.blogspot.pt/2012/09/arruacas-periodiqueiras.html (http://combustoes.blogspot.pt/2012/09/arruacas-periodiqueiras.html)

  2. CeC

    Já dizia, e com razão, Montesquieu: “La tyrannie d’un prince dans une oligarchie n’est pas aussi dangereuse pour le bien public que l’est l’apathie des citoyens dans une démocratie.

    Não deixa, no entanto, de ser irónico que a estagnação de pensamento democrático acabe por fomentar uma constante tentativa de mudança governativa – mesmo e quando se observa que tal não se traduz em resultado algum benéfico.

  3. João Pinto Bastos

    Concordo consigo Miguel, apesar de ter algumas dúvidas quanto à bonomia que demonstra perante o nosso ministro das finanças. Ainda que José Gomes Ferreira tenha, de quando em vez, um estilo algo trauliteiro, não sei até que ponto foram impertinentes  as questões colocadas pelo jornalista da SIC. De resto, subscrevo tudo a 100%, como sempre.

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