Mês: Agosto 2012 (Page 1 of 12)

Programa para mais logo

Jack White, provavelmente um dos poucos músicos da actualidade que possui um verdadeiro Toque de Midas, com vários álbuns e singles dos The White Stripes, The Raconteurs, The Dead Weather e ainda a sua carreira a solo a marcarem este início de século – para os mais distraídos, Seven Nation Army marca presença assiduamente nos estádios de futebol pelo mundo fora – toca hoje no Coliseu dos Recreios, pelas 21h.

 

Da revolta em Sade

 

(Marquês de Sade, imagem daqui)

 

Albert Camus, The Rebel:

 

«From rebellion, Sade can only deduce an absolute negative. Twenty-seven years in prison do not, in fact, produce a very conciliatory form of intelligence. Such a lengthy confinement makes a man either a weakling or a killer – or sometimes both. If the mind is strong enough to construct, in a prison cell, a moral philosophy which is not one of submission, it will generally be one of domination. Every ethic conceived in solitude implies the exercise of power. In this respect Sade is the archetype, for in so far as society treated him atrociously he responded in an atrocious fashion. (…)

 

He his exalted as the philosopher in chains and the first theoretician of absolute rebellion. He might well have been. In prison, dreams have no limits and reality is no curb. Intelligence in chains loses in lucidity what it gains in intensity. The only logic know to Sade was the logic of his feelings. He did not create a philosophy, he pursued a monstrous dream of revenge. Only the dream turned out to be prophetic. His desperate claim to freedom led Sade into the kingdom of servitude; his inordinate thirst for a form of life he could never attain was assuaged in the successive frenzies of a dream of universal destruction. In this way, at least, Sade is our contemporary.» 

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Bomben mit bomben…

 

Quatro vítimas da tempestade de fogo que caiu dos ares sobre Hamburgo

 

Era este o discurso pronunciado pelo Führer, respondendo às primeiras incursões da RAF em território do Reich. Sabemos muito do que se passou e algo da Europa que se perdeu.

 

Após o assassino dilúvio de fósforo, chegaram as décadas da reconstrução e de um penoso esquecer de brutalidades cometidas e sofridas. Bem a propósito da hora de inconsciência instalada que todos vivemos, eis que os alemães são agora pela força dos mediaobrigados a recordar aquilo que os seus pais e avós passaram. Quantas mais bombas terão ficado por explodir? Quantos “rebenta quarteirões” ainda esperarão o momento da detonação? Não nos admiraríamos nada se nas imediações do Reichstag e do Palácio de Buckingham, ainda existirem alguns incómodos explosivos adormecidos. A Europa que pense no assunto. 

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Porque os homens não são anjos e a melhor forma de testar o carácter de um homem é dar-lhe poder

Tomás Belchior, Automutilação (negrito meu):


«O português não se transforma num santo quando vai para o governo ou para a administração pública. Na melhor das hipóteses fica o português que sempre foi. Na pior, com a polícia, o fisco e a Assembleia da República à mão, transforma-se no tiranete que nunca conseguiu ser. Sendo absurdo ter como objectivo de política económica mudar a natureza humana ou a estrutura do universo, resta-nos o caminho inverso. Resta-nos reconhecer que a única visão, a única estratégia, o único plano de que as empresas precisam é de um plano para levar euros do bolso dos consumidores para os seus próprios bolsos. Ou seja, precisam de começar a ajudar os portugueses a concretizar as suas visões individuais em vez de ajudarem o Estado a acabar com elas.»

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O pseudo-intelectualismo e a destruição do belo

Sobre as interpretações pseudo-intelectuais do caricato restauro protagonizado por Cecilia Gimenez, recomendo a leitura deste post do Nuno Resende, de que aqui deixo os parágrafos finais:

 

«Os tais teóricos, uma maioria barulhenta que, aposto, nunca põe ou pôs os pés numa igreja, considera o novo Ecce Homo a 8.ª maravilha do mundo, mesmo apesar das advertências da D. Cecília. Volto a repetir o que disse há poucos dias sobre o caso pussy riot: o mundo aplaude tudo o que faça ruído e tenha cor. Neste caso, aplaudiu o feio, o esquizófrenico, o tétrico.

Basta olhar para o restauro incompleto e para a reprodução ad nauseam que dele se tem feito para compreender parte deste fenómeno que os sociólogos, esses cartomantes da ciências, já estudam: não interessa o valor original, estético, simbólico, artístico e iconográfico daquele Ecce Homo. Tudo isso é suplantado pela vulgaridade de um engano, de uma nódoa. O mundo que tem acesso às redes sociais e à televisão adora cumular-se de vulgaridade. Não poderia ser de outra forma. Dificilmente entende ideias mais complexas do que a de um pitoresco borrão saído da paleta de uma velhinha beata.»
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Ainda o IEFP e Vera Pereira

Subscrevo inteiramente este post do JCS:

 

«Mas depois, quando aparece um responsável do IEFP a explicar que o erro foi apenas colocar lá o nome da candidata escolhida, ninguém lhe pergunta por que raio se publica uma oferta que já tem uma candidata escolhida. Porquê? Para quê? Quem tomou essa decisão? Com que objectivo? 

 

É isto que eu acho extraordinário: Ninguém perguntar aos responsáveis que estupidez é esta, como se fosse suficiente a explicação de que o nome que lá apareceu não devia ter aparecido. É como chegar a casa e apanhar a mulher com outro. -Então que pouca vergonha vem a ser esta, querida? -Querido, tu é que não devias ter aparecido, porque de resto está tudo bem.»

 

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Joana Vasconcelos: a rainha de Versailles

Fotos: Pedro Quartin Graça – direitos reservados

Confesso que não era particular fã das obras de Joana Vasconcelos. A verdade é que, depois de as ver no Palácio de Versailles, mudei de opinião. Pelo menos quanto às expostas não resta a mínima dúvida que as mesmas valorizam, e muito, o já de si interessante, ainda que não esmagador, conteúdo do palácio. A artista está de parabéns. Para além do mérito da obra, pelo facto de ser a primeira mulher e a mais jovem artista a expor no Palácio de Versailles. Assim como também deve ser felicitado quem teve a feliz ideia de juntar tão interessantes e originais propostas criativas a um espólio de séculos.

Fica aqui um registo em três imagens apenas. 

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Aqui também é Portugal!

Fotos: Pedro Quartin Graça – direitos reservados

Quis o destino que este Verão “fosse ao encontro” da nossa última Rainha, de facto.

Maria Amélia Luísa Helena de Orleães, madrinha de baptismo de SAR, o Senhor Dom Duarte, foi uma “Rainha mártir”. Na verdade, D. Amélia perdeu todos os seus familiares directos: O seu marido, o Rei D. Carlos foi assassinado; o seu filho mais velho, D. Luis Filipe teve o mesmo cruel destino. O seu segundo e último filho, o Rei D. Manuel II, morreu vinte e quatro anos depois daqueles. 

D. Amélia teve a particularidade de ter sido o único membro da Família Real exilado após a implantação da República em Portugal. Entre os seus destinos contou-se a França, mais concretamente a simpática povoação de Chesnay, paredes-meias de Versailles, onde se localiza o pequeno castelo de Bellevue. Chamar castelo àquela casa é manifesto exagero. Trata-se de uma construção bonita, apalaçada, desconhecida da esmagadora maioria dos portugueses e dos franceses, e que foi a residência da nossa Rainha, também princesa de França, até a sua morte, em 1951. Deixada ao governo francês por testamento, é agora sede da Câmara de Agricultura de Île-de-France. Aqui ficam as imagens. Para que recordemos quem, no passado, de forma corajosa, afirmou de modo sincero: “Quero bem a todos os portugueses, mesmo àqueles que me fizeram mal.”

The End

 

Esperemos que não se trate de mais uma oportuna adaptação da excelente e bastante esquecida obra The Last 100 Days, de John Tolland. Alertado pela minha diária e rotineira leitura do Portugal dos Pequeninos, fiquei a saber que Pacheco Pereira teceu algumas considerações acerca do livro The End. Ainda não tendo lido a obra de Ian Kershaw, regista-se a certeza de um relato pormenorizado acerca do Götterdämmerung do III Reich. Sabe-se que até ao último dia da sua existência, a máquina do regime funcionou como os seus chefes previam. Os operários escrupulosamente chegaram a horas para o trabalho, os juízes ditaram as sentenças por mais impiedosas que fossem, a burocracia funcionou em pleno e os kommando de manutenção da ordem nacional-socialista foram tão eficazes como sempre. 

 

Poderá ser  mais fácil recorrermos a explicações do âmbito da psicologia, de massas ou não, que teria efectivamente condicionado uma imensa população de mais de noventa milhões de aparentes sonâmbulos, apesar da desgraça que atingiu a Alemanha com inaudita violência. Ainda não sei se Ian Kershaw procura explicar algumas das razões que levaram os alemães à total subordinação ao regime e consequente resistência até à última bala, último panzer e ao derradeiro buraco onde se entricheirava a gente do Volksturm. Algo sucedeu para tal ferocidade da tropa e civis alemães, aliás demonstrada pelas mais de 300.000 baixas soviéticas na já de antemão perdida batalha de Berlim. 

 

Qual a explicação plausível para tal encarniçamento da resistência popular que permitiu o perfeito funcionamento da máquina do poder nacional-socialista?

 

 

Na Alemanha, a situação da oposição interna não era das mais auspiciosas. Apertadamente vigiada pela Gestapo, jamais pôde contar com atentos auditores no campo dos Aliados ocidentais. Se numa primeira fase da guerra, Winston Churchill procurou desferir um grande golpe político ao convidar o idoso Kaiser Guilherme II, então exilado em Doorn, a instalar-se com a sua família no Palácio de Buckingham – o que assim teria dado esperanças aos mais altos círculos militares e políticos alemães – tudo mudaria após 7 de Dezembro de 1941. A administração Roosevelt influiu decisivamente no sentido de conduzir uma guerra total à Alemanha, apresentando o Reich como um perigoso rival económico de que a Grã-Bretanha se veria livre no final do conflito. Isto, no preciso momento em que a administração americana ditava entre um ranger de dentes, o fim do Império Britânico. Desde cedo surgiu o absurdo princípio da rendição incondicional que aliado ao sobejamente conhecido Plano Morgenthau, consistiu num poderoso catalisador da resistência da população alemã a qualquer baixar de armas perante um inimigo que ameaçava o país e o seu povo, com uma total aniquilação. Goebbels pôde levar até ao Maio de 1945, o princípio da Totaler Krieg, Kürzester Krieg. Foram amplamente divulgados os mapas, as sugestões de desmembramento territorial, as transferências maciças de populações que não foram nada mais, senão aquilo a que hoje chamamos limpeza étnica. Os alemães sabiam o que esperar dessa rendição incondicional e o regime de Hitler soube o que havia a fazer na frente interna. Após Kursk, o campo Aliado – mais propriamente os aliados ocidentais e o co-beligerante gigante soviético – receavam qualquer tipo de paz separada. Estaline impressionara-se com o ainda imenso poder e a nova tecnologia militar que a Wehrmacht demonstrara na grande batalha de verão e Londres e Washington temeram uma reedição – em condições vantajosas para a URSS – do Pacto de 23 de Agosto de 1939, o que desviaria toda a capacidade bélica do Reich para o combate na frente ocidental. Durante anos, Moscovo, Londres e Washington habituaram-se a súbitas reviravoltas na política externa gerida por Hitler e não podia existir qualquer certeza quanto ao desfecho de uma guerra que ainda se previa longa. Aliás, os golpes de oportunidade não eram exclusivos da Wilhelmstrasse e da Chancelaria. Entre os aliados desconfiança era mútua e as constantes delongas na abertura de uma frente anglo-americana em França, durante muito tempo alimentaram os temores soviéticos.

 

Conhece-se o estado de espírito de muitos dos principais oficiais das Forças Armadas alemãs e dos serviços secretos onde pontificava o Almirante Canaris. Alguns contactos foram feitos e sendo sempre ignorados pelas potências ocidentais, aos alemães não restou qualquer alternativa senão o prolongamento da expectativa, no preciso momento em que o regime procurava reforçar a frente interna através da máxima publicidade dos desígnios de Roosevelt, Estaline e Churchill. Os bombardeamentos terroristas sobre as cidades alemãs ou da Europa ocidental ocupada, acirraram a vontade de uma resistência à qual jamais fora apresentada uma alternativa dura, mas aceitável. Há também que atender à natureza do regime, muito diferente daquele que em 1918 fora encabeçado pelo Kaiser e que preferira o Armistício, ao alastrar da catástrofe da guerra em solo alemão.  Por muito que isso desagrade à inteligentsia ocidental, o regime nacional-socialista tinha como base essencial o constante apelo às massas e a persuasão política junto de sectores até então afastados do interesse dos centros do poder tradicional. Criaram-se assim as condições que conduziram à esperada fidelidade de operários, camponeses e populações urbanas directamente afectadas pela total falta de discernimento de oportunidade política por parte dos aliados. A Berlim chegavam os relatos da ocupação soviética dos Balcãs, as violações, morticínios sem fim, destruições deliberadas, roubos e iniquidades nada diplomáticas que o sistema de Estaline impusera a romenos e búlgaros, aliás imitando aquilo que a força do Reich trouxera à Europa Oriental. A máquina de propaganda do Dr. Goebbels tinha à sua diposição uma miríade de possibilidades, dados os acontecimentos que quotidianamente ocorriam dentro e fora da Alemanha: o bombardeamento da periferia de Paris que ultrajara milhões de franceses, os ataques às cidades do noroeste francês e belga, o princípio da “culpa colectiva”, o insólito apoucar do regime pós-fascista e co-beligerante do Rei Vítor Manuel III e a terrorista e inútil demolição diária de todos os centros urbanos do Reich, consistiram num precioso auxílio do esforço de mobilização geral, sempre em nome da sobrevivência dos próprios alemães.  

 

Em suma, os Aliados jamais procuraram enfraquecer ou criar clivagens no imponente edifício do regime de Hitler, jogando o tudo ou nada que garantiu o desastroso epílogo de 1945-1991. A questão da rendição incondicional, julgada como essencial e irrecusável, acabaria por não funcionar na outra capital do Eixo. Ao Japão, não se aplicou o sacrossanto princípio da incondicionalidade da rendição. Muito apressada em colocar um ponto final nos avanços soviéticos na Ásia Oriental, Washington concordou com algumas condições apresentadas pelos japoneses. A prova? O filho de Hiro Hito continua instalado na Palácio Imperial de Tóquio e ao invés da incógnita que a Alemanha hoje representa, o Japão ainda é um dos mais seguros aliados dos Estados Unidos da América. 

 

 

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