
O ministro dos Negócios Estrangeiros, vem agora dar a voz ao seu governo. Após os negócios com o regime de Kadhafi, pretende responder às generalizadas críticas, algumas das quais, bastante violentas.
As relações de Portugal com outros países, não podem pautar-se por sentimentalismos, é certo. Se de outra forma fosse, permaneceríamos isolados e a realidade diz que nem sequer os nossos mais próximos aliados – Estados Unidos, Alemanha ou Espanha, por exemplo – podem eximir-se a críticas quanto a certas políticas consideradas como obscuras. Há uns anos, já aqui falámos da necessidade de Portugal competir com outros Estados, procurando a obtenção de vantagens políticas e económicas, mesmo que nalguns casos, possamos tropeçar num ou noutro déspota. Angola é o caso mais evidente e do qual ainda ouviremos falar. A política não pode ser feita de outra forma, sob pena da condenação ao completo ostracismo, desperdício de possibilidades, usura da capacidade económica do país e porque não?, do prejuízo geral.
O que tem sido controverso, é o patamar atingido quanto a certos relacionamentos, sempre ligados a negócios que transcendem em muito, os interesses directos do Estado. Tudo isto torna ainda mais evidente, a total falta de transparência da conhecida transumância entre o dinheiro e a política portuguesa, seja esta qual for. Agravando as dúvidas, o governo arremete em direcção ao total comprometimento político, consagrado em actos simbólicos.
No que respeita à Líbia, não estamos a falar numa ditadura semelhante à egípcia, se é que o forte autoritarismo dos militares de 1952, pode ser considerado como um sistema ditatorial. A diferença entre o despotismo de Kadhafi e a oligarquia cairota, é abissal em todos os aspectos a analisar, com a agravante da Líbia ser um país escassamente povoado e detentor de uma colossal riqueza petrolífera que há muito poderia tê-la guindado a uma indiscutível prosperidade. As imagens transmitem uma realidade de penúria, desorganização, falta de infraestruturas e o caos urbano, aspectos típicos de sociedades no limiar da subsistência.
É impossível o sr. Luís Amado poder um dia declarar, o seu desconhecimento em relação aos crimes que a comunidade internacional aponta a Kadhafi. Este homem, é um velho conhecido dos meandros do terrorismo internacional, desde o seu patrocínio a bandos como a Fracção do Exército Vermelho, o grupo Baader-Meinhof, a OLP na sua fase sequestradora e bombista de linhas aéreas, os grupos terroristas que quase derrubaram o regime italiano na década de setenta, etc. O caso Lockerbie foi um episódio de uma longa e sangrenta lista de atrocidades cometidas, às quais se somam todo o tipo de atropelos ao direito internacional, respeito pela soberania alheia e bem identificadas agressões militares além-fronteiras. Durante os anos 80 e numa sensacionalista declaração de estadista de pacotilha, Kadhafi ousou declarar a Madeira como parte integrante de África, ou seja, um “território a descolonizar”. Se não encontrou qualquer eco, tal se deveu ao enraizado sentimento português naquele arquipélago. No entanto, a atoarda consistiu numa ostensiva ameaça à integridade e segurança do nosso país e o ministro dos Negócios Estrangeiros devia disso ter a plena consciência. A personalidade errática de Kadhafi, tornou-se numa permanente fonte de instabilidade e a tão imediata, como inesperada reacção ao seu recente amigo Itália-Berlusconi, é elucidativa.
No caso da Líbia, o governo não esteve bem, nem actuou em conformidade com a exigida prudência, especialmente quando se tratava de um Estado bem conhecido pelos problemas acima apontados. Houve um claro e desnecessário comprometimento político e excesso de efusividades, evidenciadas em atitudes que transcendem em muito, os normais procedimentos que a convivência entre Estados determina. Nem sequer nos aventando a considerar os ainda desconhecidos detalhes económicos das relações estabelecidas, a forma geral consistiu num desastre que era de antemão previsível. Aliás, o tempo escolhido para estes contactos com os chamados “Estados párias”, é sempre em contra-corrente com o sentido de decoro que a situação internacional recomenda. A dimensão portuguesa aconselha a uma grande prudência, coisa que parece faltar a um governo que faz a gestão da política externa, ao sabor de alguns interesses privados e das suas prioridades mediáticas. Não só nos referimos à Líbia, como também ao Irão e principalmente à Venezuela, onde o nosso governo – e pior ainda, Portugal – tem sido de forma ultrajante, exposto à mais acintosa propaganda de Chávez.
Luís Amado tardou em tomar uma posição inequívoca e nos primeiros dias da sublevação, todos escutámos as suas palavras contemporizadoras e sugerindo “adaptações inadiáveis”! Estamos perante a notória queda de um regime e o que lhe sucederá, poderá pedir contas a S. Bento. Não tardaremos em sabê-lo.
A entrevista ao Diário de Notícias, surge numa fase de previsível desenlace, decerto fatal para as hostes dos até agora estranhos amigos da república portuguesa.
Adenda: após uma noite bem dormida, tive o prazer de ler este texto de Henrique Raposo. Diz o essencial.