Mês: Março 2009 (Page 1 of 23)

Notícias de Lourenço Marques

 

 

Esta nossa política nacional é sempre servida com o efeito de duche escocês. Se os órgãos de comunicação empanturram a opinião pública com notícias de cariz genericamente escandaloso, o  ministério público, os bastonários das mais diversas ordens ou tagarelas procuradores que melhor fariam em permanecer calados, contradizem-se, causam a confusão, desmentem, confirmam ou mentem.  Dir-se-ia existir um secreto conluio para o lançamento do bambúrrio e caos que inibam a análise dos factos. Ainda os casos não subiram à barra dos tribunais e o almejado descrédito conseguiu-se no meio de grande barulheira, desacreditando todo o sistema. Fazem-nos invariavelmente recordar a história do mentiroso que pedia socorro sem razão haver para tal e que de tanto gritar, um dia viu-se em apuros sem que vivalma o acudisse. É esta a situação destes dias onde a indiferença conquistou o país. Dias de perigo iminente.

 

A política nacional é desinteressante e mesquinha, sem sequer merecer a chancela de corriqueira, coisa que confirmaria a normalidade dos organismos bem enraizados e que vivem da gestão corrente. Pelo contrário, vivemos segundo padrões estabelecidos por um nivelamento por baixo e tão chão, que  os telejornais se tornaram numa montra de  notícias de rodapé de folha informativa de âmbito aldeão. As evidentes mentiras assumidas diante de todos – que afinal são mesmo dez milhões de parvos – , o reescrever de factos antigos e bem conhecidos, o arrogante desperdício e exercício da inveja mais vergonhosa – leiam o post do Miguel -, a pobreza de espírito, o não saber dizer nem fazer, enfim, o Estado que temos, levam muitos portugueses a entreter-se com outras coisas.

 

Estive umas longas horas em agradável conversa com o João, um amigo de Moçambique e que lá voltou a residir. Questionei-o acerca de aspectos da cidade e embora conhecendo de antemão as respostas, não me canso de as ouvir repetidas, num exercício que talvez se aproxime daqueles que na primária éramos obrigados a praticar no quadro de ardósia, devido a  um qualquer castigo. É sempre um prazer confirmar coisas que não mudaram nem são de previsível alteração. De forma um tanto egoísta, com alguma satisfação reconheço que a escassez de meios financeiros de certos países, proporciona a involuntária e inconsciente – deles, os que lá ficaram – preservação de um passado do qual um dia fizemos parte. 

 

Falou-me demoradamente acerca da grande bairro da Polana, a zona onde sempre residimos em Lourenço Marques. A nossa casa, na antiga Avenida Princesa Patrícia 1208, lá está, tal e qual como nos anos sessenta. Pelo que me disse, miraculosamente intacta e bem conservada. Fiquei a pensar na gente que hoje habitará o local que ainda agora conseguiria percorrer de olhos vendados. Sei que periodicamente ainda repinta de verde o portão de entrada do jardim que mantém a plantação de orelhas de elefante e cactos, como no nosso tempo.  Nada mudou no pátio das traseiras onde desajeitadamente batíamos bolas contra uma alta parede, imitando os nossos pais no squash para adultos. Ainda lá está e espantosamente, há hoje quem continue a fazer exactamente o mesmo, sendo bem visíveis as marcas naquele muro já sem cor. É a única explicação que encontro para aquelas manchas, porque não é possível que ao fim de quase quatro décadas, ainda sejam o mudo testemunho de quem um dia deu alguma importância àquela alvenaria. O único aspecto descuidado é o quintal das traseiras, hoje transformado num pequeno baldio coberto com uma mata de altas ervas, sendo mesmo impossível a ele aceder pelo portão das traseiras. No entanto, os locatários salvam as aparências, cuidando do acesso principal, aquele que recebe as visitas. 

 

Os passeios continuam naquele resistente cimento riscado em quadrados perfeitamente simétricos que a Câmara Municipal de Lourenço Marques tão bem sabia manter. As acácias de flor vermelha naturalmente seguem o ciclo do atapetamento decorativo da rua e não será difícil imaginar os miúdos de hoje a brincar, tal como nós fizemos, com aquela espécie de catanas vegetais que destas árvores caiem e que alternam as funções de espadas ou instrumentos musicais, pois as sementes no interior chocalham à vontade ou talento rítmico dos habilidosos.

 

Há coisas que não mudam porque obedecem às leis da natureza ou aos sempre iguais caprichos do bicho homem. Surgem apenas outros rostos e diferentes nomes. Alguns que durante tanto tempo conhecemos e se familiarizaram, esfumaram-se involuntariamente, separados por uma história na qual não tiveram qualquer influência. Ficam as fotos e isso já é alguma coisa. Em certos momentos, são muito mais importantes que a crise dos nossos bolsos e da política deles. 

 

* Na foto: em primeiro plano, o Miguel. No segundo plano, eu, o João e a Tiki (a Angela estava para nascer). Afagando o grupo, o cozinheiro, protector e dedicado amigo Bernardo. O que lhe terá sucedido?

Acácia

 

 

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Ainda sobre os últimos artigos de Mário Crespo,

concordo com Luís Barata, quando diz que tem dias, exemplificando com o tratamento privilegiado que deu a Joe Berardo, nos últimos anos na Sic Notícias.

               Só que, quanto a mim, está neste momento numa fase boa, quando, nomeadamente pergunta " porque é que o Presidente da República não se pronuncia sobre isto, nem convoca o Conselho de Estado ", quando, como escreveu no dia 16 de Março,  tem nas mãos instrumentos poderosos para influenciar o destino do país.

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O ciclo da esquerda

 

Entre as ligações que o Samuel faz saltou-me à vista o texto de João Marques de Almeida, com o título "O Mundo não vai virar à esquerda", como resposta a um artigo do Público de Domingo da outra semana, que perguntava precisamente se o mundo virara à esquerda.

 

Em princípio, assim parece. Na Casa Branca Obama promete uma nova relação do Estado com as pessoas e uma maior regulação das instituições financeiras – os recentes casos dos violentos sermões aos gestores da AIG são disso um bom exemplo. Na América do Sul, o Brasil, a Argentina, o Chile e o Uruguai têm governos de esquerda moderada, enquanto que a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e agora o Paraguai são regidos por uma esquerda mais radical, com a Venezuela à frente. Também no El Salvador a esquerda acaba de derrubar a ARENA, que há vinte anos estava no poder. No México, o populista PRI (cuja classificação ideológica é ambígua, enquadrando-se mais no "extremo centro") ameaça voltar ao poder. Isto sem falar em Cuba.

Já na Europa, até os governos de direita de países como a França, a Alemanha, a Itália e a Grécia tiveram de intervir mais na economia.

 

As excepções contam-se pelos dedos, mas também as há. No Chile, por exemplo, a direita está à frente das intenções de voto, com o esvaziamento do estigma Pinochet. E mais casos haverá. Mas ainda não se percebeu bem se é um reflexo da crise financeira e económica que se abateu sobre o Mundo e a rejeição do liberalismo outrora triunfante ou se se trata de um novo ciclo para vários anos, mais estrutural que conjuntural.

 

É bem provável que a segunda hipótese esteja mais próxima da verdade. O momento lembra, e o artigo do Público também, o início dos anos oitenta, pela sua inversão, quando Tatcher e Reagan ascenderam ao poder por muitos anos, ao mesmo tempo que outras figuras tão diferentes de direita, como Khol ou mesmo a nossa "modesta" AD, ao passo que na América Latina predominavam os ditadores militares anti-comunistas, com o beneplácito dos EUA. E, tal como agora, a França ia em sentido contrário, dando uma forte maioria a uma coligação de socialistas e comunistas e elegendo Miterrand para a presidência.

 

 

As diferenças estruturais viam-se no modelo económico – mais estatista em fins dos anos setenta, mas liberal agora – e sociológico, aqui mais nos Estados Unidos. Mas Revolução Conservadora iniciada por Reagan, com a conquista do Midwest e das classes médias, parece ser um modelo esgotado. Os fracassos da Administração Bush e do seu Compassionate Conservatism e a crise assustaram os americanos e empurraram-nos para os braços dos liberals.

Não significa isto que os Estados Unidos virem "socialistas". Tal não aconteceu na presidência de Clinton e nem sequer nos tempos do New Deal. Há coisas que fazem parte do código genético americano e que jamais desaparecerão. Uma certa independência dos poderes federais e um característico Do it Yourself são parte constitutiva desses genes. Mas as loucuras de Wall Street e o optimismo do mercado levaram a uma mudança de atitude. E é preciso não esquecer que o Congresso já tinha maioria Democrata desde 2006. Mais do que uma mudança abrupta, há algo de simbólico na ascensão de Obama à Presidência, que é a marca do fim desses trinta anos de conservadorismo.

 

Mas é verdade que não havia um domínio direitista absoluto do mundo, nem sequer ocidental. Mais depressa se verificava uma derrota da esquerda mais radical, com a queda do Pacto de Varsóvia e da URSS e a conversão da China em potência capitalista, e a conversão da esquerda moderada sob a forma da Terceira Via, protagonizada pelo New Labour de Blair e o abandono de uma política de nacionalizações e de apoio nos sindicatos. O que se verifica agora é mais uma derrota de várias direitas (e mais um abandono do modelo liberal, para que volte dentro de anos) e o consequente predomínio da esquerda em sua substituição. Um ciclo definitivo? Só para os entusiasmados do momento, que quando as suas facções ganham adquirem ou reforçam uma visão determinista das coisas. Continuará a haver ciclos consoante as circunstâncias e os acontecimentos favoreçam esta ou aqueloutra ideologia. Mas não tenhamos dúvida de que nos próximos tempos será sobretudo a esquerda a mostrar-se triunfante.

 

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Não me lembro de que ano, mas foi num 31 de Março

 

que o cimo da escrivaninha do meu irmão se encheu com os livros de Eça de Queiroz  editados pela  « Livros do Brasil » .

Foi uma surpresa não só para ele, mas para os outros irmãos, que já afilavam o dente ao ver aquela colecção inteirinha à nossa espera.

                Mas esperava-me um balde de água fria: Só podes entender estes livros quando tiveres 15 anos, disse o meu pai, quando viu o olhar guloso que lhes deitei.

Deve ter sido por essa altura que comecei a visitar regularmente a escrivaninha do meu irmão…

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A V E N T A R

 

Faz hoje um ano o blog Aventar.

 

Há alguns meses, recebi um convite do Ricardo Santos Pinto, dizendo contar com a minha colaboração num blog composto por gente dos mais diversos matizes. Já os conhecia e hesitei: tantos malucos, anarco-tudo, komunas desalinhados e pior que tudo, republicanos em pleno século XXI (!)…

 

Aquiesci e não me arrependo, pois creio sinceramente fazer parte deste bando de alucinados Por Bem. Sempre disse o que me apeteceu, não existindo qualquer tipo de agenda ou indicações políticas mais ou menos correctas. O Aventar é a prova da possibilidade de diálogo e colaboração entre pessoas que mal se conhecendo, acreditam num país diferente e finalmente alheado de questiúnculas, invejas ou interesses pessoais e egoístas.

 

Na véspera do dia das mentiras, uma verdade: o Aventar vale a pena.

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Que Mário Crespo está a cair-me no goto,

confirmo com a leitura deste artigo de opinião, a que cheguei via Mensagem Certa..

Pena ser uma das poucas vozes independentes – no sentido de não ser um fulano a limitar-se a fazer um favor ao outro partido quase gémeo –  no meio, porque acredito naquela máxima de que " se um jornalista incomoda muita gente, dois jornalistas incomodam muito mais ".

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« On ne guérit jamais de son enfance »

 

 ( autor desconhecido, citado por Tomaz de Figueiredo )

 

Vem a Patti lembrar-me outro dos meus amores de infância: aquele livro em que Edmundo de Amicis dá voz ao pequeno Henrique, quando este se decide a escrever um Diário, desde a sua entrada na escola.

   « Coração » foi um livro que me acompanhou desde os oito anos, e que continua dentro dele.

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