Mês: Setembro 2008 (Page 1 of 13)

Quando partiu,

há quinze dias, levava apenas uma mala. No Domingo trazia, além dessa mala, uma mochila, cheia de livros sobre as Ilhas Azuis. Via-se nos olhos, também eles azuis, o quanto tinha gostado destas férias na terra das brumas, mas, soube depois, onde fora encontrar muito sol, e um céu limpo, a fazer jus ao azul que lhe é associado.

Ontem mostrou-me as fotografias, e  ouvindo-a falar com tanto entusiasmo, a contar, empolgada, o que sentira quando tirara cada uma delas, lamentei o não  ter  podido concretizar o projecto de lá ir no Verão passado.

Talvez possa repetir aqueles poucos dias de Maio…

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O regabofe acabou?

 

No passado dia 15 de Setembro, aqui deixei um post em referência ao discurso de Bento XVI contra a plutocracia. Apenas duas semanas depois, chegamos a esta situação, com notícias de desastres a chegar hora a hora, quase nos remetendo para a Invasão marciana  daquele programa radiofónico que tendo como base A Guerra dos Mundos de H.G. Wells, há décadas espalhou o pânico na América. 

 

A crise que se vive era previsível e já muitos se tinham apercebido da total irrealidade de uma economia fictícia, feita de gases tão rarefeitos como aqueles encontrados na estratosfera. Especulação, manipulação de números não correspondentes à realidade material, eis o que temos há muitos, demasiados anos. As implicações são fáceis de prever e julgo que podemos esperar o seguinte:

1. Fim das ilusões quanto à descida de impostos, pois os Estados serão forçados a intervir, urgindo obter mais receitas.

2. Fim da grande farra dos empréstimos para fins tão relevantes, como aquisição de electrodomésticos, férias em resorts exóticos nas Caraíbas,  automóveis de gama muito acima das possibilidades dos deslumbrados compradores, apartamentos que nada valem no mercado real e que mais que nunca precipitarão em breve a indústria da construção civil para o buraco da falência. Vão acabar os regabofes dos cartões de crédito oferecidos à porta de centros comerciais e aqueles termos esquisitos como leasings, spreads, etc, que serão aplicáveis a uma minoria.

3. As pessoas terão de viver de forma mais comedida, sem 4 televisões de ecrã plano-plasma em cada divisão da casa e uma infinidade de inutilidades como 6 play-stations, dois leitores de dvd – um antigo, com dois anos e um novo, comprado ontem . E poderiamos continuar indefinidamente.

4. No plano político, assiste-se hoje à inacreditável indignação dos comentadores televisivos da economia , que agora incrédulos pela alegada politiquice dos governos e parlamentos do Ocidente, se insurgem contra o laxismo, pois … "os Estados têm mesmo de intervir!"… (SIC). São os mesmos que ainda há dias pretendiam a privatização de tudo o que resta do sector público e …"deixar o mercado funcionar"… Obcecados com jogos virtuais de bolsa, agora não sabem o que dizer e pior, o programa a apresentar para a salvação do sistema. 

Que bela oportunidade para os partidos dos extremos políticos. É que, ou muito me engano, ou dentro em pouco as eleições tornarão bastante audíveis vozes sieg heil! um pouco por toda a parte. Ditas com um fundo musical menos marcial, como na Rússia, mas sem dúvida não deixarão de se fazer escutar por muitos. Em Portugal, na melhor das hipóteses, voltámos a 1908, com a decadência absoluta e definitiva do rotativismo. Estamos a dois anos de 1910, ano de todas as oportunidades. Quem dará o primeiro passo?

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O regresso à idade da pedra? Ou apenas histeria colectiva?

Não é por nada mas este histerismo em torno da não aprovação do plano de salvação do sistema capitalista norte-americano serve os propósitos de quem? Eu ainda não dei por efeito directo nenhum desta coisa a que chamam crise financeira internacional e alguns já andam por aí a anunciar um regresso à idade da pedra. 

 

Bom, agora a sério, parece-me que estamos sem dúvida num momento chave da História do século XXI. Achavam que os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 definiram uma qualquer ordem mundial? Pois não definiram, mas aquilo a que estamos a assistir vai sem dúvida definir, e porquê? Porque o sistema financeiro mundial (sim porque estamos efectivamente no domínio de uma economia globalizada, ainda que a um grau menor do que aquilo a que um dia eventualmente chegaremos) tem vindo sempre a preservar-se por via da homeostase integrando as problemáticas com que eventualmente se deparava através de processos de aprendizagem simples mas neste momento ninguém sabe como responder a esta crise. A mão invisível deixou de funcionar e a intervenção por via do Bailout Plan também não me parece garantir que a crise será superada. Tanto quanto sei pode até vir a ter efeitos ainda mais desastrosos do que se o sistema rebentar neste momento.  

 

Portanto, aquilo a que vamos assistir será um doloroso processo de superação do paradigma sistémico vigente por via de um processo de aprendizagem complexa e capacidade homeorética que nos levará a um novo sistema. Que tipo de sistema será, deixo para o domínio da futurologia de que normalmente não me ocupo, embora esta seja uma boa altura para economistas, juristas, politólogos, historiadores, enfim, académicos, começarem a pensar nisso. O que me parece é que o ensinamento marxista de que a infraestrutura económica condiciona a superestrutura política vai mais uma vez ter reflexo prático quando todo um novo sistema económico e financeiro mundial se estabelecer em simultâneo com um reajustamento da hierarquia das potências. Nunca as palavras de estudiosos das teorias imperialistas como Duroselle ou Paul Kennedy fizeram tanto sentido, mais cedo ou mais tarde os Estados Unidos da América teriam que cair. Vamos ver é quem os substituirá se não tiverem recuperação possível. Uma coisa é certa, Bush ficará para a História, e não necessariamente pelos melhores motivos.

O Ressurgir da Rússia

(Artigo publicado no Pacta Sunt Servanda, Jornal do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas)

 

 

Faltavam cerca de 24 horas para o início dos Jogos Olímpicos de Pequim, que assinalaram a crescente afirmação chinesa enquanto potência mundial, quando se principiou um dos fenómenos mais marcantes dos últimos anos em termos de política internacional. Depois de no dia 7 de Agosto as forças separatistas da Ossétia do Sul (que vinham desde há algum tempo a causar incidentes como forma de inviabilizar um alegado acordo entre a Federação Russa e a Geórgia quanto à desistência desta última da ambição em fazer parte da NATO), e as forças georgianas concordarem com o cessar-fogo e em iniciar conversações mediadas pela Rússia, o herói da chamada Revolução Rosa e Presidente georgiano Mikhail Saakashvili prestou-se a ordenar o ataque da posição das forças ossetas chegando até à capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, onde obteve um parco controlo que pouco tempo depois viria a ser contrariado pelo massivo dispositivo militar russo enviado para a região.

 

Nos dias seguintes assistiu-se a uma ocupação de pontos chave no território georgiano por parte da Rússia, a que se juntaram as declarações unilaterais de independência não só da Ossétia do Sul como de outra região separatista, a Abkhazia, numa zona do globo já de si perpassada por diversos conflitos separatistas originados desde o colapso do bloco soviético, enquanto o Presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, assistia ao início dos Jogos Olímpicos, e os europeus se prestavam a tentar mediar um acordo de cessar-fogo principalmente através da acção de Nicolas Sarkozy, Presidente francês na qualidade de Presidente rotativo da União Europeia.

 

Parece-me apenas evidente que norte-americanos (especialmente George W. Bush e a sua ânsia expansionista) e europeus são em grande parte culpados pela situação em que se viram os georgianos que provavelmente não estavam à espera de tamanha passividade dos seus alegados aliados, demonstrando Saakashvili uma certa ingenuidade ao agir de forma algo irresponsável, característica por que se pautaram também aqueles que o vinham incitando a desafiar a Rússia e não lhe souberam dar suporte efectivo quando necessário.

 

Esta questão levanta uma das mais prementes observações sobre os líderes políticos ocidentais, a inexistência de verdadeiros líderes na acepção da palavra, isto é, dos grandes estadistas de outros tempos. Ao que parece já ninguém no Ocidente está preparado para este jogo, em grande parte convencidos da inevitabilidade da expansão das democracias liberais e habituados à legitimidade moral proveniente desse conceito que se reflecte nas premissas do que norte-americanos e europeus desejam. Habituámo-nos a tratar da cooperação para o desenvolvimento, da integração, do comércio internacional, tomamos a paz como garantia universal e quase sem nos apercebermos parece que nos esquecemos dos ensinamentos quanto ao estudo de conflitos, percepções e acções estratégicas. 

 

Putin e a Rússia mais de Putin do que de Medvedev não esqueceu e a demonstrá-lo está a retórica utilizada para justificar a acção russa. Gostemos ou não, Vladimir Putin é provavelmente um dos líderes mais inteligentes da actualidade, uma reminiscência da centelha que iluminou os espíritos dos grandes estadistas do passado, pelo menos do século XX. Conseguiu de certa forma paralisar todo o Ocidente utilizando a própria retórica ocidental de protecção dos direitos humanos, dos seus cidadãos e da auto-determinação dos povos ao reconhecer a independência da Abkhazia e da Ossétia do Sul (algo que já era esperado e que norte-americanos e europeus não deveriam ter legitimidade para contestar se atendermos ao precedente aberto pelo caso do Kosovo sob pena de se apresentarem como algo hipócritas, como tem vindo a acontecer com a tentativa de Condoleeza Rice em mostrar que são alegadamente situações diferentes), demonstrando ainda que a Rússia está bem e recomenda-se, a fazer lembrar cada vez mais os grandes cenários de equilíbrios geopolíticos montados e percepcionados de parte a parte durante a Guerra Fria, acepção que tem ensombrado as relações entre Estados Unidos e Rússia ao longo do impasse verificado em termos de resolução do conflito, cumprimento do cessar-fogo e retirada das tropas russas.

 

A entrada da Geórgia na Aliança Atlântica parece ter ficado mais longe com o aviso por parte de Putin e Medvedev de que a Federação Russa é uma potência mundial e já não um império desmoronado. Tal como a Alemanha, a Rússia demonstra que é uma daquelas nações destinadas a reerguer-se das cinzas, desta feita pela acção de Vladimir Putin ao estabilizar politicamente e organizar estrategicamente um imenso país que tem vindo a beneficiar do aumento dos preços de petróleo e gás. A Rússia será sempre um portento internacional, a sua própria dimensão é a causa da sua propensão para actuar enquanto agente estabilizador nos territórios próximos das suas fronteiras, o seu espaço vital geopolítico, tal como o continente americano o é para os Estados Unidos da América. 

 

As sucessivas tentativas de redução do espaço de influência russo nas suas fronteiras através do aliciamento desses países a fazer parte de organizações como a NATO em conjunto com a teimosia norte-americana em instalar um sistema de defesa anti-míssil na Europa de Leste só têm contribuído para um crescente mal estar no diálogo entre Washington e Moscovo, fruto talvez de uma certa visão norte-americana de um mundo unipolar com os Estados Unidos como potência directora, que é cada vez menos o mundo em que vivemos tal como o próprio Presidente Medvedev alertou em entrevista aos canais de televisão russos no dia 31 de Agosto ao afirmar que “o mundo tem que ser multipolar” e que “não podemos aceitar uma ordem mundial na qual todas as decisões são tomadas por um lado, ainda que um tão sério e importante como os Estados Unidos da América. Tal ordem é desequilibrada e comporta conflitos iminentes”, o que o eminente editor da Newsweek, Fareed Zakaria, já tinha afirmado na Foreign Affairs no artigo “The Future of American Power- How America Can Survive the Rise of the Rest”.

 

Como conclusão parece-me salutar lembrar as palavras de Ari Shavit que em artigo no israelita Haaretz a 14 de Agosto afirmou que “o dia 8 de Agosto, dia em que os Jogos Olímpicos começaram e se iniciou o conflito na Geórgia, será não menos recordado do que o 11 de Setembro de 2001. Quando a história do século XXI for escrita, irá ver esta passada semana como a semana que simboliza o ressurgir de duas novas potências mundiais: China e Rússia. Passarão décadas até que a China ultrapasse economicamente os Estados Unidos. Passarão anos até que a Rússia volte a ser uma potência Czarista. Mas o dia 8 de Agosto marcou o caminho. A questão não é que tipo de mundo nos espera. A questão é quão rapidamente chegaremos lá”.

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“E ainda se admiram que Salazar

 

 

 

 

 

 

 

 

tenha sido votado por uma grande maioria como o maior português de sempre", disse-lhe eu, no auge da irritação.

"Somos muitos os que acreditamos que os valores da Segurança e da Ordem são possíveis numa Democracia em Portugal, mas também são muitos os que se esforçam por demonstrar que eles só são possíveis numa Ditadura, e para isso contam com a conivência das autoridades".

          

           Nesse dia tinha havido, numa outra zona da cidade, perto dali, dois assaltos à mão armada, e havia mais de meia hora que ligara para a PSP pedindo-lhes que viessem acabar com a arruaça de altos berros. A escumalha deu-se ainda ao luxo de continuar a gritaria por mais um bom bocado, depois de lhe chamarmos a atenção, porque sabe que mesmo que chamemos a polícia, esta lhe dará ainda muito tempo…; e não se enganou: quando o agente chegou,  limitou-se a perguntar se queríamos participar o ocorrido ao Comando Geral; que sim, pelo que preencheu um formulário completíssimo, com nome dos pais, profissão, etc. etc., ao fim do que disse – "vou pôr no relatório que encontrei tudo normal"

Fiquei indignada. Depois de lhe ter dito que o colega que atendera o telefone  confirmara, porque ouvira, a barulheira, ainda lhe perguntei porque é que nos fizera perder tempo com o tal formulário.Eram quatro horas da madrugada.

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