Mês: Abril 2008 (Page 1 of 19)

O Dalai Lama vigilante

A inesperada reacção mundial à situação no Tibete, levou os dirigentes pequineses a uma hábil e bem conhecida manobra desmobilizadora. Propuseram conversações ao supremo chefe tibetano, o Dalai Lama que com a sua habitual mestria  e conhecimento profundo da verdadeira natureza do governo chinês, respondeu de forma sumária e inequívoca. O líder espiritual está disposto a encetar negociações, como sempre manifestou ao longo das cinco décadas de invasão, ocupação e colonização do seu país. No entanto, sabedor dos meandros ínvios da máquina de propaganda do PCC, tornou bem claro que as anunciadas negociações deverão ter uma base concreta, ou seja, uma agenda para discussão. 
No seu ímpeto expansionista, a China tem procurado controlar os países limítrofes – Laos, Birmânia, Coreia do Norte -, ao mesmo tempo que outros como a Tailândia e Singapura , são fortemente influenciados pela importante presença de comunidades chinesas, ou por directa intervenção nos partidos de governo, como no Camboja. Os acontecimentos no Nepal evidenciam esse avanço para sul, garantindo o acesso às passagens dos Himalaias e estabelecendo um regime satélite nas fronteiras da rival Índia. De facto, Pequim liga-se a todo o tipo de Estados considerados como párias, desde o Irão, à Síria, Coreia do Norte ou Venezuela, sedentos de parcerias técnicas no âmbito militar. Na África, a par das missões económicas, intervém nos conflitos internos de vários países, fornecendo armas e assistência técnica. A recente saga do cargueiro chinês com armamento destinado ao Zimbabué é apenas um episódio de uma longa série  de tomadas de partido pelo ditador de serviço, chame-se este Mugabe ou qualquer outro disposto a garantir o fornecimento de matérias primas vitais ao galopante crescimento económico da RPC.
O Dalai Lama conhece os factos e enfrentou Mao e Chu-Enlai, não claudicando perante Xiaoping e Ziemin. Não será o actual chefe do PC quem o irá vergar. Se os Jogos Olímpicos ofereceram uma oportunidade de exibição do novo poder económico do colosso, colocaram-no todavia, sob o severo escrutínio da opinião pública ocidental. Dos consumidores. E para os chineses isso é o que mais importa. Na verdade, tudo o mais são ninharias.
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A Esquerda, a Direita e o Antes Pelo Contrário

Escutadas as notícias no telejornal da RTP-2 às 10 da noite, fui acometido de uma fúria súbita. A diseuse de serviço abriu o noticiário com a eterna lengalenga da alta dos preços do combustível, onde o despudor das petrolíferas encontra forte apoio – mesmo que tácito – nos perturbantes silêncios governamentais. Prosseguindo o rol de pequenas misérias, passei a saber do futuro e brutal aumento dos bens alimentares, num mundo onde mais cem milhões de seres humanos entrarão no auspicioso clube dos famélicos. O arroz, o trigo, a soja, o milho ou a colza, todos servem para mitigar ainda que de forma ténue, os bestiais apetites das indústrias energéticas. O facto de o sector alimentar se encontrar ligado de forma ostensiva e escabrosamente íntima a certos grandes interesses da área da banca, das farmacêuticas e do investimento, conduz ao imediato e simplista raciocínio da conspiração velada. Não sei nem me interessa saber a verdade desta hipótese, mas a despreocupação, a imbecil e alvar naturalidade com que estas desgraças são oralmente defecadas, fazem transbordar o copo mais fundo.
Já tinha decidido que nas próximas eleições gerais, não ir votar na nossa direita. Para dizer a verdade, jamais votei PSD – velhas contas relativas à descolonização – e assim, oscilei sempre entre o PPM – hoje liquidado pelo buraco negro em que se transformou -, o CDS, o MPT e confesso, nas últimas municipais, no MRPP. Esta última participação eleitoral nada teve que ver com opções ideológicas – nunca fui nem poderei ser comunista -, mas tão só devido á personalidade de Garcia Pereira, meu antigo e excelente professor de Direito do Trabalho na FDL.  A sua honestidade, competência e a recordação da forma cativante e próxima como tratava todos os alunos, pesaram naquela aparentemente despropositada decisão. Não me arrependo e até poderei repetir a ousadia.
Estamos todos a ficar fartos da Situação, tal como ela hoje se apresenta. Quando ouvi o discurso da dona Manuela Ferreira Leite, concluí que finalmente alguns responsáveis do regime reconhecem o facto do descrédito total a que os partidos e seus titulares chegaram. Continuo a acreditar que a chamada democracia burguesa é o sistema constitucional que melhores garantias de progresso e justiça propicia à comunidade. Nada me demove desta crença infantil. No entanto, esta actualidade  de tugúrio de escroques, de gentalha impiedosa, medíocre e de baixo calibre, enoja qualquer um e sinto-me tentado a considerar que aquilo que vivemos – a Europa inteira, excluindo dois ou três casos -, é uma simples e grotesca macaqueação da Democracia que oficialmente é letra de lei. Basta.
Se os grandes interesses económicos pretendem continuar a medrar e a lucrar com o sistema que gostosamente aceitamos como ideal, deve encontrar soluções. Deve prescindir da autêntica usura a que submete os contribuintes-consumidores. Deve moderar o exibicionismo dos alardeados lucros escandalosamente feitos à custa de milhões esmagados pela coacção imposta pela simples necessidade de sobreviver. Os detentores dos órgãos de Soberania, devem dar o exemplo, cortando radicalmente nos gastos que são visíveis e perfeitamente elimináveis. 
Eles que se ponham de acordo, do BE e PC, ao PS, PSD ou CDS. O tempo urge e neste corpo esquálido da Pátria, encontrem um derradeiro fôlego de vida que nos leve a um futuro melhor e mais digno daquilo que fomos e poderemos vir a ser.
A alternativa é muito simples: insurreições generalizadas, invasão e destruição da propriedade, terrorismo urbano e finalmente, uma segunda oportunidade ao fascismo. Estão preparados?
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Os EUA e o fim da ordem unipolar – o necessário reajustamento estratégico

(Ler ainda o artigo do Tiago sobre o desajustamento estratégico de Washington. Em conjunto elaborámos estes dois artigos para o Pacto, jornal do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais do ISCSP, também publicados no Nostrum Symposium, aqui e ali)

Embora a realidade do declínio da hegemonia dos Estados Unidos da América seja evidente aos olhos de todos, algo desde há muito teorizado sobre a forma dos ciclos de poder e hegemonia internacional, até porque empiricamente observável em termos de domínio material pelo hard power, tal não significa no entanto que os interesses dos Estados Unidos estejam ameaçados, tal como procuraremos demonstrar sucintamente.

Se com o fim da Guerra fria entrámos na era da unipolaridade no sistema internacional, com Francis Fukuyama a clamar pelo Fim da História através do aguardado mas (ainda?) não concretizado efeito dominó de expansão das democracias liberais a todo o mundo, com um claro domínio material do sistema internacional por parte dos Estados Unidos e da aliança vencedora, isto é, a NATO, com o advento dos ataques terroristas ao World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, ganharia um reforçado ênfase a tese do Choque de Civilizações de Samuel Huntington, implicitamente exaltada em Precisará a América de uma Política Externa, obra em que Henry Kissinger procura responder às necessidades de reajustamento norte-americano às rápidas mudanças no panorama internacional.

Em termos militares é claro o domínio norte-americano e transatlântico através da NATO, que se tem transformado para dar resposta a novas problemáticas numa bipolaridade entre o Ocidente e seus aliados contra o Terrorismo Internacional. Mas é também claro que o conceito de segurança abarca hoje áreas tão distintas como os direitos humanos, energia, ambiente ou desenvolvimento, o que faz com que os instrumentos de Washington estejam cada vez mais desadequados à realidade vigente, sendo insuficientes para responder a todos os inputs do sistema internacional.

Porém, em termos ideológicos é facilmente colocada em perspectiva a noção de que os ideais norte-americanos presidem à construção da Ordem Internacional vigente, em que o surgimento e/ou ressurgimento de novos actores como potências com um papel importante a desempenhar, acontece segundo as regras do jogo e da arena construída a partir do ponto central, os Estados Unidos, sendo de assinalar que em termos políticos a legitimidade internacional é construída com base nas formas democráticas de governo e nas economias de mercado.

Todo o sistema financeiro, económico e comercial a nível mundial tem a intervenção dos Estados Unidos, quer em termos públicos e directos através de organizações como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, quer através de meios privados, pela bolsa, pela banca e pelas suas empresas transnacionais que além fronteiras se instalam por todo o mundo e constituem o motor produtivo da economia mundial.

No recente artigo The Future of American Power, publicado na Foreign Affairs de Maio/Junho 2008, Fareed Zakaria faz um paralelismo entre a hegemonia norte-americana e a hegemonia do Império Colonial Britânico, onde demonstra que enquanto a queda do Império Britânico se deveu a termos económicos, ultrapassado no fim do século XIX pelos Estados Unidos e Alemanha, e posteriormente devassado com duas Guerras Mundiais, no caso dos Estados Unidos o seu declínio explica-se precisamente em termos políticos, pela falta de ajustamento de Washington às transformações no sistema internacional.

A influência sob a forma de hard power que os Estados Unidos têm vindo a perder é natural à luz do surgimento de outros actores e das transformações de um sistema internacional com centros de poder cada vez mais difusos, mas se o mundo está a mudar, é no sentido dos ideais norte-americanos, pelo que normativamente nos parece que o ajustamento dos instrumentos de Washington se deve dar por forma a permitir o domínio em termos de soft power.

Como refere Zakaria, estamos a entrar numa era pós norte-americana, em que os Estados Unidos continuam a ser o actor central decisivo para o funcionamento do sistema mas que têm que se adaptar para ocupar menos espaço e permitir que o jogo funcione segundo as regras por si criadas, onde os seus interesses não se encontram ameaçados porque são simultaneamente os interesses de todos os outros actores, que hoje em dia se pautam pela constante necessidade de desenvolvimento para os seus países, populações e organizações.

Para concluir, parece-nos salutar, em altura de eleições para a Presidência norte-americana, relembrar Paul Kennedy em A Ascensão e Queda das Grandes Potências ao considerar que a natureza liberal e muito pouco estruturada da sociedade americana (…) lhe dá provavelmente maiores hipóteses de se reajustar a circunstâncias mutáveis do que as que teria uma potência rígida e dirigista. Mas isso, por seu turno, depende da existência de uma liderança nacional que consiga compreender os mais amplos processos em funcionamento no mundo actual e que tenha consciência tanto dos pontos fracos como dos fortes da posição dos Estados Unidos enquanto procura ajustar-se ao contexto global em mutação, até porque, por ter tanto poder quer para o bem, quer para o mal, por ser a pedra angular do sistema ocidental de alianças e o centro da economia global actual, aquilo que faz, e o que não faz, é muito mais importante do que aquilo que qualquer das outras potências decide fazer.

Agora é esperar para vermos o que nos aguarda.

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Terapia termal (1)

Não sei se o facto de ter nascido numa vila termal, banhada pelo Rio Ave, onde são notáveis os vestígios de balneários romanos, datados de, pelo menos, o tempo do imperador Trajano Augusto, o qual deu nome a um monumento nacional, o Penedo de Trajano, dito da Moura, viria a influenciar neste fascínio que sinto pelos lugares termais.

Vidago, por exemplo, é um lugar mágico, e percorrer os vastos jardins do Palace Hotel, abertos ao público- quando lá fui, ainda o hotel estava em obras- é, por si só, a melhor das terapias.

Mais perto, são famosas as Termas de Vizela e as de Caldelas; a todas elas é comum, além da calma que lhes é, justamente, associada, uma atmosfera da "Belle-Époque", que, também, marcou Portugal.

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Precisamente há 25 anos

Foi a última verdadeira campanha eleitoral do PPM, com muitas iniciativas de rua, paredes cobertas de cartazes e um bom comício no Villaret. O PPM tinha princípios, foi pioneiro de ideias que hoje fazem parte do nosso dia a dia, propiciou camaradagens para a vida, fez parte da nossa juventude. Bons tempos em que o Partido não era mero objecto de projectos pessoais ou de vaidades extemporâneas.
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