Mês: Fevereiro 2008 (Page 1 of 15)

Algo está podre nesta república

A notícia conclusiva da semana, foi sem dúvida, a recusa do indigitado director da PJ do Porto, em assumir o cargo que previamente aceitara. É mais um exemplo entre muitos, de recusa do exercício de funções de grande visibilidade pública e responsabilidade política. Não se tratando de qualquer auto-reconhecimento de incapacidade para o cargo, o putativo resignatário – antes da efectiva tomada de posse -, corajosamente alertou a opinião pública, acerca de um dos grandes males que, paulatina mas irreversivelmente, vai corroendo o nosso tecido social: a calúnia e a baixa intriga de contornos difusos e perigosos, porque destrói reputações e ameaça pela coacção moral.

Os portugueses amam a crendice nas teorias da conspiração, nascidas em casas sombrias, onde as senhas, códigos de contacto e juras de segredo, compõem o cenário supersticioso e aterrorizante. Inventam-se sempre cumplicidades inter familiares, intentonas de círculos alegadamente abastados – o ouro alheio é matéria ofuscante das razões – e no pior dos casos, cumplicidades decorrentes dos chamados vícios privados, sem que em contrapartida, se demonstrem minimamente hipotéticas virtudes.

Afastando a mera fé estúpida e a intriga onde em qualquer tasca se arrasta pelo lodo a reputação de quem, pelo seu mérito ou por outra circunstância, sobressai da massa anónima, cremos ser evidente, a existência de grupos interessados na manipulação daquela, sempre permeável a descarregar nos “bem aventurados”, as frustrações quotidianas, os complexos de inferioridade e a simples mas mortífera inveja.

Se o ataque se dirige geralmente, à “integridade moral” do alvo a abater – enfim, a tudo aquilo que é precisamente mais discutível e na maioria das vezes, completamente irrelevante -, a ameaça assume por vezes contornos ferozes de violência. Violência esta que em conformidade com o carácter do meliante ou denunciante, atingirá preferencialmente quem mais perto está da vítima, isto é, a família. Nada disto é estranho, nem é exclusivo da comunidade portuguesa, porque existe em qualquer parte do mundo. O que se torna revoltante, é a dimensão que atinge no nosso tempo, propagando-se como fogo em palha seca, através de quem mais devia zelar pela liberdade individual e colectiva, ou seja, a comunicação social. Não há dia em que aspectos absolutamente irrisórios da vida deste ou daquele famoso, seja espiolhada sumariamente em letras garrafais, sem que o conteúdo da notícia, corresponda minimamente ao alerta social. A falta de vergonha, a total insensibilidade, a malvada mesquinhez, deveriam apenas merecer como resposta, o nojo. Aquele nojo propiciador de um acesso de vómitos que nos limpe de vez, de toda a porcaria curiosa, indigente e ácida com que copiosamente somos alimentados no dia a dia.
A baixeza de carácter é uma praga que alastra incontrolavelmente e é uma pena verificarmos que os exemplos venham exactamente de onde sempre são esperados: de cima. Que vergonha, meus senhores!

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Do Combustões

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Croniquetas Republicanas (3)

A Camioneta Fantasma

Caía a noite a 1 de Fevereiro de 1908, quando um exultante Machado Santos, procurava secundar o Regicídio, sublevando a guarnição do quartel de Campo de Ourique. O assassinato de D. Carlos e do príncipe Luís Filipe, era uma oportunidade para os republicanos que embora tivessem a cidade coagida pelo medo, não conseguiram derrubar o regime.

Naquela noite de 19 de Outubro de 1921, Machado Santos não terá porventura, recordado esse já longínquo final de dia de há catorze anos. No entanto, tal como o rei que odiara, caiu varado por balas assassinas, mas bem consciente do fim que se avizinhava. Junto ao chafariz de Arroios – ainda existe e foi recentemente restaurado -, foi fuzilado sumariamente, às mãos de um bando de marinheiros sublevados e de homens da guarda pretoriana do regime, a GNR.

Sob o comando do famigerado rufia radical Abel Olímpio – o Dente de Ouro -, e procedendo a uma recolha sistematica daqueles que haviam apoiado ou nutrido simpatias pelo sidonismo, a Camioneta Fantasma percorreu as ruas de Lisboa, num trajecto que teve como terminal o Arsenal da Marinha, ao Terreiro do Paço. Aí, após insultos e agressões físicas, caíram crivados de balas, Carlos da Maia, o ex-primeiro ministro António Granjo, o comandante Freitas da Silva e o coronel Botelho de Vasconcelos.

Este Portugal alegadamente de “brandos costumes” que a auto complacência nacional propagandeia como virtude singular, estava desde os anos 80 do século XIX, habituado à violência verbal, às correrias, distúrbios e algazarras sediciosas. A conspiração, a manufactura de bombas e a eliminação de partidários da ordem Constitucional, eram actividades naturalmente consideradas pelos responsáveis do prp, como acções necessárias à instauração do novo regime. Ao longo de três conturbadas décadas, criou-se o estado de espírito tendente a aceitar todo o tipo de violências, depredações e a recusa reflexiva de qualquer poder constituído. Não tinham os chefes republicanos ido em constantes romagens, homenagear o Buíça e o Costa ao coval do Alto de S. João?

Na fase final da Grande Guerra, o chamado Sidonismo tinha ensaiado uma reformulação do regime, num sentido presidencial e autoritário, e enfrentou de imediato, a férrea oposição do partido de Afonso Costa e dos sectores jacobinos mais radicais. A GNR era muito diferente daquela que hoje conhecemos e na região de Lisboa – o centro político onde tudo se decidia -, contava com mais de 14.000 soldados, poderosamente armados com metralhadoras e artilharia, surgindo como uma garantia da república contra sublevações populares ou do exército.

Com a colaboração de jornalistas – detalhe interessante e elucidativo do clima subversivo que os media inculcaram na sociedade -, foram assim eliminados, alguns dos vultos mais proeminentes do 5 de Outubro de 1910.

O regime que dentro de alguns meses esta 3ª república pretenderá comemorar, assentou palafitas num lago de sangue, onde soprou desde a sua turbulenta génese, o vendaval da violência, livre arbítrio, coacção física e moral.

A situação de então, é eloquentemente justificada pelo republicano Cunha Leal que diria ...” o sangue correu pela inconsciência da turba, a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda à solta, matando por que é preciso matar (…) é esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama”… Jaime Cortesão acrescentaria: “sim, diga-se a verdade toda. Os crimes que se praticaram, não eram possíveis sem a dissolução moral a que chegou a sociedade portuguesa”.

Lendo os jornais diários e escutando os actuais chefes políticos, questiono–me acerca do futuro. Portugal vive um momento propiciador de uma erupção violenta que irrompendo inesperadamente, mais catastrófica poderá ser. Quantos Dentes de Ouro andarão por aí?

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Numa democracia…

…digna desse nome, com uma monarquia liberal e uma religião de estado, mas onde vivem imensas pessoas com variadíssimos credos (tal como mostra a foto abaixo, pois parece-me que há ali uns senhores que de anglicanos terão muito pouco), e onde encontramos aquele arcaísmo antidemocrático que é a Câmara dos Lordes, segundo Vital Moreira, a quem a Helena Matos respondeu num dos melhores posts da blogosfera nos últimos tempos, acontece isto:

Ministers have been accused of “rank hypocrisy” after it emerged that a third of Gordon Brown’s Cabinet are campaigning against Government plans to axe post offices in their own constituencies. The Government said the proposals to close 2,500 branches in Britain were necessary to preserve the Post Office network’s £150 million-a-year subsidy, and cut its estimated losses of £4 million a week. However, the move has caused widespread public opposition and The Daily Telegraph can disclose that seven Cabinet members oppose the plans in their constituencies. Some have organised petitions to spare their post offices from closure. The group includes some of Mr Brown’s most senior colleagues – Jack Straw, the Justice Secretary; Jacqui Smith, the Home Secretary; and Geoff Hoon, the Chief Whip. Andy Burnham, the Culture Secretary; Tessa Jowell, the Olympics minister; John Denham, the Secretary of State for Innovation, Universities and Skills, and Paul Murphy, the Welsh Secretary, are also campaigning, or have campaigned, to save their local post offices.

(Jack Straw numa manifestação para salvar o posto de correios da sua constituency)

Ainda que Smith, Jowell e Straw sejam acusados de hipocrisia visto terem previamente aprovado a redução dos postos de correio, estando agora a tentar salvar os das suas constituencies, pode-se arguir como tantas vezes se faz no nosso país que as circunstâncias mudam e as opiniões mudam também, ou não tenhamos nós na memória de curto prazo o caso do Aeroporto OTA/Alcochete.

Mas o que realmente nos interessa é que neste Portugal onde a matriz política da alma lusitana é tendencialmente absolutista e repressora das opiniões divergentes, seria impossível algo como isto acontecer. É a diferença entre uma pseudo-democracia e uma verdadeira democracia evoluída onde os partidos não agrilhoam os seus miliantes à disciplina de voto e ao pensamento único, entre uma jovem envelhecida democracia da obediência ao chefe e uma velha jovial democracia que cultiva a rebeldia e a divergência como forma de intervenção política e cívica, entre um verdadeiro país politicamente desenvolvido e um verdadeiro país de políticos desenvolvidamente atrasados e ignorantes na arte de governar.

Ainda haverá por aí alguém a querer dar lições de democracia aos britânicos?
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Numa democracia…

…republicana e laica, acontece isto:

Um departamento de uma escola pública obrigou um professor a fechar dois jornais humorísticos, onde se satirizava a Igreja e alguns políticos, porque o conteúdo era “desprestigiante” para a escola. O Conselho de Departamento (…) deliberou, numa reunião, que estes meus projectos na blogosfera tinham que ser encerrados. Segundo argumentam, desprestigiam a minha própria imagem, a imagem do departamento e, acima de tudo, a imagem da universidade. Além disso, (…) dizem que eu faço lá coisas que não têm nada a ver com a minha profissão e que um docente universitário não pode ser escritor criativo nem humorista. Portanto, proibiram-me também de participar em eventos ligados ao humor.(…). O visado diz que não recorreu a outros órgãos da Universidade porque essa foi uma decisão tomada em família. Sou casado, a minha mulher não tem emprego, tenho um filho pequeno para criar e preciso do ordenado para pagar a dívida da casa, para pagar o carro e por aí fora.

José Adelino Maltez, in Sobre o Tempo que Passa – ver aqui a notícia relativa ao professor Daniel Luís

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Quando o Conselho de Segurança se porta como deve

A Rússia está pronta a apoiar o projecto da nova resolução da ONU contra o Irão, se Teerão não suspender, nos próximos dias, o enriquecimento de urânio, disse hoje à imprensa o embaixador russo junto da ONU, Vitali Tchurkin.

Eu que tento sempre analisar os dois lados de qualquer questão tentando partir de um abstracto ponto neutro, não me posso imiscuir de pensar que, se por um lado o Irão está no seu direito soberano de desenvolver armas nucleares, bem de acordo com as premissas realistas, por outro lado a comunidade internacional, esse ente invisível mas omnipotente, também está no seu direito de não permitir a difusão de armas nucleares. E neste campo, o chamado Ocidente e todos os restantes países devem (aqui, estou normativamente a emitir um juízo de valor que confere um carácter subjectivo à análise anterior) realmente conjugar esforços para impedir que o Irão venha a desenvolver armas nucleares, um condicionante estratégico que ameaça de sobremaneira a estabilidade do sistema internacional, e de forma mais grave pode destabilizar ainda mais uma zona do globo que muitos apontam como eventual região onde surgirá o próximo conflito de grande escala.

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Quando o orçamento não chega…

…ou não é bem gerido como em muitos casos:

Por via das dificuldades económicas de muitas instituições, ou de iminentes alterações às carreiras do sector, é já um dado adquirido que as universidades públicas vão reduzir os seus corpos docentes. Se serão cortes da ordem das dezenas, centenas ou até milhares é a dúvida que neste momento deixa angustiados muitos profissionais da área.

Ainda vamos ver professores universitários na rua a juntarem-se aos do básico e secundário. Quando para se garantir um lugar como professor universitário é necessário ser doutorado, deixa de haver espaço para os restantes. E é que para chegar a professor doutor são necessários uns quantos anos, e entretanto as contas não se pagam do ar. E nem todos têm bolsas da FCT.

Parece que já estou a ver certos professores doutores decrépitos ou que de professores têm muito pouco, a recostarem-se nos seus cadeirões, enquanto os promissores jovens académicos não têm alternativa a não ser desistir da carreira académica.

E não me parece realmente muito viável esta bolonhesa de fazer 3+2 + não sei quantos anos, para se chegar a professor doutor e poder ser docente universitário com lugar garantido. Isto sou só eu a pensar, mas quantos pais estão dispostos a pagar 7 ou 8 ou 9 anos para o filho ser professor doutor?

Ainda por cima, a haver despedimentos em massa serão os mais novos e que menos estejam ligados às redes de caciques das universidades onde leccionam que serão os primeiros a ser despedidos. Mais uma vez vamos assistir à velha rábula de “eu estou cá há mais tempo que tu”, ou “eu tenho uma licenciatura desta universidade e tu não”, a mostrar como a antiguidade é um posto neste Portugal decrépito onde a meritocracia nunca se fará realmente sentir, não sendo por isso de admirar o crescente brain drain que se vem paulatinamente instalando, esse mesmo síndrome de país terceiro mundista.

Há dias alguém me dizia que me via mais como professor/político do que como militar ou diplomata. Entende porque é cada vez mais difícil viver neste país, especialmente para os jovens, mesmo sendo a carreira académica a que mais me atrai?

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Mistérios da governação

Lino não lançou o desafio de gestão por parte de privados do Aeroporto Sá Carneiro, mas prefiro acreditar na palavra de Belmiro. É que ao contrário da classe politiqueira capitaleira o Eng.º Belmiro não é conhecido por andar aí a inventar coisas.

O presidente do Conselho de Administração da Sonae, Belmiro de Azevedo, afirmou na terça-feira estar a estudar a possibilidade de criar uma entidade que faça a gestão moderna do aeroporto, respondendo a um desafio do governo.

O ministro das Obras Públicas disse desconhecer esse “desafio” e garantiu não o ter feito.

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Visitem o blog Nocturno

Nem tudo é tristeza ou prostração. Se quiserem deleitar-se com as melhores fotografias de uma Lisboa que passa quase despercebida diante dos nossos preguiçosos olhos, vão ao blog Nocturno. É esta a cidade que almejamos e talvez um dia, a Luísa possa divulgar imagens de prédios que hoje arruinados, ressurgirão rejuvenescidos e aptos para enfrentar mais uns séculos.

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