Nova morada

O percurso do Estado Sentido nos Blogs do Sapo termina aqui, por força da decisão do Sapo de descontinuar o serviço de blogs. Fomos um dos blogs pioneiros nesta plataforma nacional, para a qual nos transferimos após um convite da equipa dos Blogs do Sapo, e é com muita pena que a vemos terminar. Agradecemos especialmente à Jonasnuts e ao Pedro Neves todo o apoio que nos deram.

Apesar de os blogs, em particular os dedicados à política, já não terem a relevância de outrora – especialmente em resultado da ascensão das redes sociais -, decidimos não só preservar o legado do nosso blog, que em Outubro deste ano celebrará 19 anos, como também continuá-lo com uma equipa mais reduzida e renovada. A partir de agora, passamos a contar com o Nuno Amaral Jerónimo, Professor de Sociologia na Universidade da Beira Interior, e com o André Saramago, Professor de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra.

Podem continuar a ler-nos na nossa nova morada, bem como na nossa página do Facebook.

Venezuela and the power politics regime

 

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The removal of Nicolás Maduro should be understood less as a dramatic intervention in Venezuela’s internal politics than as a calculated move within a wider contest between great powers. Stripped of its rhetorical framing, the action fits squarely into the logic of geopolitical competition at a time when relations between the United States, Russia, and China are increasingly defined by spheres of influence rather than universal norms. 
 
For years, Venezuela has occupied an anomalous position in the Western Hemisphere. Economically collapsed, diplomatically isolated, and heavily sanctioned, it nonetheless served as a useful foothold for U.S. rivals. Russia leveraged Caracas to project influence close to American territory, combining arms sales, energy cooperation, and intelligence ties to signal that U.S. dominance in its own region could be challenged. China, meanwhile, treated Venezuela as a long-term strategic investment, extending large loans backed by oil exports and embedding itself in the country’s infrastructure in exchange for political alignment. The result was a state of limited internal capacity but outsized geopolitical significance.
 
From Washington’s perspective, this situation was inherently unstable. Great powers may tolerate unfriendly governments abroad, but they rarely accept sustained rival penetration in areas they consider strategically proximate. The move against Maduro therefore resembles a contemporary assertion of hemispheric primacy—less an explicit revival of the Monroe Doctrine than its quiet enforcement under modern conditions. The message is not ideological, but positional: external powers are free to compete globally, but not without consequence in regions where U.S. military and logistical superiority remains overwhelming.
 
The implications for Russia are relatively straightforward. Venezuela offered Moscow a low-cost means of exerting pressure on the United States far from Europe, allowing it to signal global reach while avoiding direct confrontation. Removing that platform narrows Russia’s strategic options and reinforces an implicit boundary in the emerging international order. Ukraine may remain contested terrain, but Latin America does not. This does not decisively shift the global balance, but it forces Russia to concentrate its resources closer to home, where the costs of influence are higher.
 
For China, the episode carries a different lesson. Beijing’s approach to Venezuela was grounded in economic statecraft: capital, infrastructure, and long-term commodity access in exchange for political reliability. The sudden collapse of that arrangement underscores a persistent vulnerability in China’s overseas strategy. Economic leverage, absent security guarantees or decisive local legitimacy, remains exposed to regime change—particularly in regions where the United States retains unmatched coercive capacity. In practical terms, the event reinforces a reality Chinese policymakers already recognize: outside East Asia, political risk remains tightly bound to American power.
 
Donald Trump’s role in this episode is not incidental. His willingness to disregard diplomatic conventions and absorb international criticism lowered the political barriers to decisive action. Where a more traditional administration might have prioritized multilateral consensus or feared precedent-setting consequences, Trump’s approach emphasizes immediate leverage and demonstrable outcomes. Whether this style produces long-term stability is debatable, but it aligns with the prevailing logic of competitive explain the move.
 
None of this suggests the absence of risk. Venezuela’s political disruption carries consequences for regional stability, migration flows, and energy markets, and it invites asymmetric responses elsewhere. More broadly, such actions contribute to the erosion of constraints that once limited overt power projection. Yet these risks are increasingly treated as manageable costs rather than prohibitive barriers in a system where deterrence, signaling, and geographic advantage have regained prominence.
 
Seen in context, the removal of Maduro is less an outlier than part of a broader pattern. Russia asserts itself in its near abroad, China tests the limits of U.S. resolve in maritime Asia, and the United States reinforces its position in the Western Hemisphere. The language of a rules-based order remains, but practice is increasingly shaped by hierarchy and proximity. Influence is defended where it matters most, not where principles are easiest to articulate.
 
In that sense, the episode reflects a reversion rather than a rupture. It illustrates how major powers now act in a world where competition is no longer constrained by post–Cold War optimism. Whether this trend leads to greater stability or deeper fragmentation remains uncertain. What is clear is that power politics, long declared dormant, is once again setting the terms of international behavior.
 
John Wolf, January 4th 2026
 
Ph.D. Law and Security
Nova School of Law, Lisbon

O vote appeal de Seguro

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Se votasse cá, seria no António José Seguro. Passo a explicar em resumidas palavras. Mas vamos por partes. Depois de dois mandatos histeriónicos, em versão benigna de populismo, multiplicados pelo dom da ubiquidade do gelado na testa e da feira do livro, os portugueses estão saudosistas da serenidade e do recato, da temperança e da discrição. Os portugueses estão de ressaca. Não se trata de casas ideológicas ou causas partidárias. Quando olho para Seguro vejo o Partido Socialista (PS). Vejo o PS de António Costa, e o próprio, a dar umas valentes bofetadas a Seguro —  muito feio, foi muito feio, mas adiante. Assim de repente, muito oportunamente, os socialistas que votaram ao abandono Seguro, agora festejam a sua proposta presidencial, irrecusável. O candidato Seguro, que já não lhes pertence, tem um vote appeal maior do que o Largo do Rato. Pela leitura que faço e pela evidência das palavras proferidas por Seguro, o seu perfil preenche os requisitos de Belém. Será capaz de se abster de cair no limbo da amizade governamental, para ser apreciado pelo camarada acidental. Será suficientemente hábil para não puxar da selfie fácil para gaudio próprio e devoção epidermal dos portugueses. Será astuto para saber quando oferecer uma palavra ou subtrair outra. Mas mais importante do que tudo isto — apresenta-se com um grau de descontaminação político mais que bastante. Não corre o perigo de dar à luz conflitos gémeos de interesses, ao contrário de Marques Mendes que até pode desconectar-se da Abreu $ Associados, mas não se livra de um extenso caderno de encargos, inúmeros dossiês e décadas de argolas. E há mais. O tom paternalista de Marques Mendes não serve para nada. Ele bem que tentou emular a receita pré-presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa aquecendo claramente a cadeira de comentador televisivo, mas essa fórmula só funciona com o original. A malta não vai em conversa de Temu ou Aliexpress. O maverick presidencial tem de ser autêntico, inigualável. Muitos acharam que o Marques Mendes deu uma tareia no Cotrim ao vivo e a dores, mas não. Marques Mendes foi autofágico — demonstrou que rasteja na lama das tricas, que desce aos pântanos onde grassam as larvas e as miudezas dos tira-teimas. Agora imaginem o que seria se eu votasse em Portugal?

 
Photo copyright: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

 

A Europa na corda bamba

 

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Não sei se deva referir-me à União Europeia ou à Europa. Ambas existem, de facto. E a França também. Seja qual for a plataforma a partir da qual se queira observar a realidade, os indicadores não são famosos. Não é preciso um relatório Draghi para entender que a Europa (ok, fiquemo-nos pela Europa) está em apuros — falta de competitividade, excesso de regulamentação, ausência crónica de um projecto de defesa comum e défice no que concerne a consenso e sincronia políticos. Historicamente sabemos que certas crises promoveram projectos económicos e sociais, a união dos povos, e visões estratégicas de conjunto. Não é líquido que, no plano europeu, possamos concluir que as arestas de diferenças poderão ser desbastadas de um modo satisfatório quando colocamos sobre a mesa a guerra na Ucrânia e os eventos que afligem Gaza. Diria o seguinte: são mais as razões que afastam as nações europeias umas das outras do que aquelas que as fazem convergir. A ideia de comunidade europeia, o embrião que deu origem ao projecto de união, está expressivamente fragilizada. A quantidade de mecanismos e artefactos de ajustamentos e concessões já não serve para dissimular a dureza dos factos. A União Europeia (ok, desta vez a união) ficou ensanduichada entre Putin e Trump. A relação transatlântica já não é o que era, e a Rússia parece estar a erigir uma nova cortina de ferro — um traçado que demarca cruamente onde a realpolitik e o idealismo se confrontam, se digladiam. Nem o fim da história nem o choque de civilizações servem para interpretar os desafios do presente. Assistimos a alterações da matriz que assumimos como inquestionável. A linguagem empregue está aquém das palavras requeridas e da ação que urge. A União Europeia evidencia-se no sistema internacional como um actor passivo, sujeito a intempéries alheias. Talvez seja o momento, à laia de Putin ou de Trump, para achocalhar as bases que sustentam convições defraudadas. De facto, não sei ao certo. Talvez seja europeu e não o saiba.

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O ambiente mental do fogo

 

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Ambiente Mental

Para lidar com a primeira entrada do abecedário, teremos de reconhecer os diferentes significados e aspectos do conceito de ‘ambiente’. Por exemplo, efectuar uma distinção entre ambiente natural, natureza ou ecossistema, e ambiente humano. As dimensões a que nos referimos são indissociáveis, pelo que em Portugal tem sido difícil estabelecer a relação de parentesco entre o indivíduo e o ambiente. A natureza em Portugal é um filho bastardo e mal amado. A natureza não é assumida enquanto propriedade colectiva ou património nacional, de forma activa e inquestionável. Talvez o nascimento de cada indivíduo e a consequente atribuição de nacionalidade deveria implicar a propriedade de um qualquer enésimo do território do país. Esta forma de cidadania proprietária teria um efeito psico-simbólico intenso, gerando uma espécie de auto-estima territorial. Não reconhecer o valor do espaço de inserção geográfico, significa praticar uma forma de ‘geo-fobismo’, expulsando a terra, tornando cada indivíduo um membro voluntário de um movimento sem-terra. Talvez devido ao seu passado histórico colonial, Portugal tenha subvertido a importância do conceito de espaço vital imediato, com a excessiva disponibilidade além-mar a incutir uma nefasta atitude perdulária. Nem mesmo a Conferência de Berlim de 1884, que instituiu o princípio de ocupação efectiva dos domínios coloniais, e que retirou territórios e capacidade de projecção de poder a Portugal, terá servido para um ‘regresso’ a limites geográficos proporcionais à dimensão nacional. Poderemos legitimamente perguntar: como e quando se inicia um processo de desrespeito pela dimensão física e natural de Portugal? Não encontraremos na literatura ou na pintura a exaltação da geo-pátria? Terá sido o antigo regime um solitário proclamador do alto da montanha? Não será possível aproveitar alguns elementos edificantes em detrimento de outros com forte carga política? E será que o 25 de Abril libertou o homem para este voltar a ser um bom selvagem? Assistimos ao tabu do domínio da terra sobre o homem, porque, de forma deturpada, o cuspir sobre o passeio ou a queimada incendiária serão expressões da interpre-tação desequilibrada do sentido de poder ou liberdade, fortemente entranhado na prática quotidiana. A análise do fenómeno anti-natureza em Portugal tem de seguir um critério mais estrutural e sociológico. A modernidade, promovida pelos governos pós 25 de Abril, apoia-se em imagens de betão armado, carros velozes e roupa de marca. Ironicamente, a imagem exterior dos indivíduos alcançou uma expressão notável em detrimento da preservação do ambiente. Mesmo perseguindo um idealizado parcelamento da propriedade latifundiária, tal não serviu a salvaguarda de um sentido ecológico. Esta indiferença em relação ao ambiente reflecte um desapego pelo abstracto, na medida em que os vínculos afectivos não se estabelecem em relação a um ideal de espírito livre ou natureza selvagem. Assim, a floresta é apropriada enquanto fenómeno de massas, colectivo e irracional, mas não por uma vontade individual. Um olhar possível sobre um processo de evolução (que obedece alternadamente a mecanismos de auge e declínio, êxito ou tragédia) pode limitar-se à aceitação do destino, sem intervenção humana praticável. Ou seja, o cidadão é um mero espectador do fenómeno natural ou, no limite, um interventor negativo. Outra leitura admissível diz respeito ao modo como a rejeição da procedência provinciana pode significar o cortar de relações afectivas com o atraso estrutural do interior não-urbano. Uma vez que os centros urbanos são habitados pelos que abandonaram as suas origens humildes e campestres à procura de melhores condições de vida, verifica-se uma tomada de consciência deturpada de modernidade, através da qual se procura dissimular a proveniência, simulando sofisticação. Os eventos que afligem a floresta não comovem porque já representam factos distantes da neo-urbanidade adquirida pelos migrados do campo. A única forma de corrigir comportamentos eco-destrutivos parece ser através da instituição de um sistema sancionatório implacável, em simultâneo com mecanismos que contemplem os esforços de reposição do equilíbrio ambiental. Os filhos menores devem reconhecer nos pais o esforço que estes desenvolvem para separar o lixo e respeitar os eco-pontos. A adopção de uma ‘agenda ambiental’ significa co-responsabilizar governos, indivíduos, crianças e proprietários que deixam aos seus cães lançar os seus dejectos nos passeios. A promoção de objectivos concretos poderá representar uma janela de oportunidades para converter adversidades em mais-valias. Por exemplo, à semelhança da recente legislação que promove as novas construções a instalar sistemas de energia solar, a instalação de redes de cisternas ou depósitos para aproveitamento de águas das chuvas poderia representar uma primeira solução para o problema de escassez de água, que terá de ser confrontado seriamente e a breve trecho. Esta solução, não original, foi concebida e instituída pelos  árabes durante a sua permanência na Ibéria. Um ‘plano tecnológico’ não significa necessariamente novidades sofisticadas, e por vezes o próprio traçado histórico oferece algumas soluções. A tecnologia comporta na sua génese uma ideia de optimização e simplificação. Uma sociedade desenvolvida garante a sua continuidade pela manutenção dos seus elementos naturais, através de um status quo que em certa medida contradiz a ideia de alteração dinâmica, mudança e progresso. Nesta acepção, o desenvolvimento corresponde à capacidade de manutenção dos factores de equilíbrio herdados do passado. Associamos a esta noção uma outra, de historicidade natural, através da qual poderemos aceitar a evolução política que altera profundamente a configuração mental e cultural da população, mas que não afecta dramaticamente a expressão física ou geográfica do território. A ideia de reserva natural em Portugal assemelha-se a uma wasteland, sem utilidade perceptível para as populações. A qualidade de vida não integra o factor natureza enquanto um elemento determinante. O ‘cidadão-tipo’ prefere eleger a propriedade de um bom carro ou casa, os fins-de-semana no Algarve do betão, ou um horário laboral flexível como elementos definidores de qualidade. Parece ter-se tornado um síndrome nacional o vínculo a matérias ou factos que representem novidade, daí que a natureza ‘eternamente silenciosa’ não consiga oferecer nenhum estímulo adicional relevante. Este quadro ainda se torna mais negro pela ausência de debate sobre a protecção ambiental, sendo que me refiro àquele desenvolvido espontaneamente pelos indivíduos, e não pelas associações de defesas do ambiente ou autoridades nacionais. Enquanto a ‘consciência do ambiente’ não se democratizar e popularizar, no espírito de cada um, não se vislumbra uma evolução favorável para a paisagem natural. Do mesmo modo que cada contribuinte tem a noção do imposto ou taxa que paga pela propriedade de uma viatura ou casa, seria conveniente integrar nessa consciência fiscal a quota devida ao ambiente. A operacionalidade de uma ‘polícia do ambiente’, eficiente e percepcionada como tal pelas populações, constitui uma obrigação moral dos governos. Uma forma de contrariar a primitiva prática de abandono de frigoríficos ou baterias no matagal, seria instituir um sistema de registo de propriedade dos equipamentos, que delimitaria os tempos de vida útil, comprometendo os proprietários com o depósito no termo da sua utilidade. Uma espécie de banco ambiental contra a poluição. O mais importante será socializar e politizar a questão ambiental, para que entre no domínio doméstico das preocupações existenciais de cada indivíduo. A lei do frigorífico, enquanto exercício exemplar, poderia servir de nota de lembrança para as transgressões ambientais, e gerando um efeito de spill-over, estaríamos a contribuir para a tomada de consciência sobre a importância do ambiente. Outra forma poderia materializar-se na criação de um cadastro ambiental que registasse as transgressõesem relação ao ambiente, perpetradas por cidadãos ou empresas. Depois, num segundo momento, a informação resultante do cadastro seria cruzada com o sistemafiscal no sentido de penalizar os prevaricadores em sede de IRS ou IRC. Uma das grandes dificuldades que Portugal encara, prende-se com um sentido de orgulho nacional fortemente dependente da expressão física da riqueza. A intelectualidade em Portugal é rejeitada porque integra uma dimensão não materialista e porque colide com aquilo que poderemos designar por ‘expressionismo’ físico. A afirmação social pode no entanto levar a que se faça a dupla demonstração do nível cultural e dograu de riqueza, através da compra de tomos de enciclopédias com lombadas lustrosas que têm lugar cativo nas estantes das salas de estar, e que fazem o regalo de observadores pouco exigentes. Uma interpretação parcial do próprio significado ou alcance da era de informação pode conduzir-nos a um juízo reducionista definido em termos de atributos logísticos ou de transporte de informação, através do qual se atribui maior importância à rapidez da entrega de mensagens. Os excessos de velocidade que se registam nas estradas portuguesas, e que conduzem a acidentes desnecessários, encontram analogia na forma como se transportam conteúdos na era de informação. Uma noção ecológica e cultural poderia estabelecer uma hierarquia na escala de valores de informação, o que significa que os produtores de informação devem procurar obedecer a critérios de qualidade, objectividade, veracidade e não necessariamente a rapidez. Nessa medida, um país ecológico investe no terreno fértil do conhecimento e cultura, e na educação dos seus cidadãos, que representa sempre um processo lento e geracional. A era da informação poderá tornar-se numa era de conhecimento se um plano tecnológico não for vendido como destino final, mas um elo de um processo muito maior. O esforço de prossecução de equilíbrio ambiental associa-se inequivocamente à ideia de paridade entre as dimensões intelectual e cultural, relegando para segundo plano a tecnologia e a ideia de vanguarda. A excessiva estratificação social do país é também responsável por vários desequilíbrios estruturais e ambientais, incluindo o desnível cultural e intelectual, pela forma como as elites se apropriam dos meios de desenvolvimento à custa do progresso colectivo. Este fenómeno observável noutras sociedades, assume contornos especiais em Portugal, porque o ‘povo’ não demonstra capacidade para produzir factores de contrapeso. A não partilha de conhecimentos na sociedade portuguesa constitui uma prática contraprodutiva e geneticamente comprometedora pela forma como contraria a teoria de evolução das sociedades, construída sobre a premissa da comunicação entre os diferentes segmentos ou classes da sociedade. Uma noção, porventura herdada do corporativismo, instigou uma actuação compartimentada, sem trocas ou comunicação efectiva. A experiência de um sector ou domínio dificilmente transborda para um ecossistema distinto, apenas porque subsiste uma atitude conservadora pouco aberta a códigos diferentes. Questionamos ainda se Portugal aproveitou a experiência histórica da multiculturalidade, das línguas e costumes distintos do império colonial. E nesse contexto observamos uma forma de desequilíbrio ambiental histórico. Neste momento o quadro mental de defesa do círculo restrito de conhecimento implica desconfiar continuamente de qualquer tentativa de incursão da parte de elementos excêntricos ou imigrados. Esse quadro social de defesa de interesses específicos compromete um sentido de desenvolvimento alargado e colectivo, capaz de integrar a diferença e a mudança, o que em última análise implica o progresso da sociedade. Na natureza, as novas espécies resultam da evolução genética forçada pelas condições adversas do meio envolvente. As sociedades, que são macróbios (grandes formas de vida), evoluem através de processos de ruptura e equilíbrio entre os diferentes agentes que as integram. Nessa medida, enquanto a prática da dialéctica entre indivíduos não ocorrer em todos os fóruns enuma sociedade aberta, a ideia, conceito ou as práticas, nunca atingirão um grau de maturação suficiente para se converterem em matéria de desenvolvimento para uma sociedade. As ideias, ao contrário dos ideais, que nascem na intangibilidade do espírito humano, são também fruto da experiência dos outros, transcritas em obras metodologicamente organizadas e que podem ser alvo de leitura e interpretação. Apenas uma fundamentação sólida do conhecimento poderá permitir ulteriores desenvolvimentos de um ideal de progresso. Se uma sociedade não promove a inteligência e a cultura de forma sustentada estará a contribuir para o desequilíbrio ambiental, pelo défice e peso da representação de uma população inculta ou analfabeta. Ter a expectativa de que a ferramenta tecnológica poderá preceder e estimular o aumento do nível cultural da população é contrário à lógica de desenvolvimento humano, em Portugal ou qualquer outro destino.

(in Portugal Traduzido, Edições Cosmos 2008; primeiro capítulo “Ambiente Mental”)

Padel de Portugal

 

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De pequenino é que se torce o pepino. Pois. Não é o caso, no que concerne a esta disciplina desportiva. Mas já estou agarrado, como se tivesse seis anos de idade. Refiro-me à modalidade cada vez mais global — Padel. Comecei há dias e já sinto a adrenalina que move montanhas. Contudo, sei refrear a ambição (por enquanto), se não o corpo pagará o preço, alto. E eu já paguei. Para colocar as coisas em perspectiva desportiva, fui praticante de equitação dos seis aos trinta e seis anos de idade. Equitação clássica, para ser mais preciso, e sei o seguinte. Nem que vivesse duas vidas tornar-me-ia enciclopédico em relação à Dressage (Dressage, do françês, dresser, educar…ensinar). E bastou um detalhe para fracturar o fémur direito e levar com dezasseis parafusos e placa, instalados no final de 2005, removidos na primavera de 2007 e reciclados em 2008. Bastou uma queda de uma poldra, um instantâneo de meio segundo para mudar o curso de uma vida. Ainda antes da fractura (feia e dolorosa), em 1999, havia sido convidado pelo grande jornalista desportivo Rui Tovar para comentar hipismo no Eurosport. Fí-lo durante quatro anos na companhia do ex-cavaleiro e bom amigo Jorge Gouveia da Costa, sempre rendido à vastidão da sabedoria que se nos escapa. Trinta anos é muito tempo, mas uma gota de água no balde do relógio ontológico. Quando certos arrivistas vêm com aquela conversa pedante de que vão para a neve, nada digo. Apenas sei que seriam necessárias três vidas para realizar um slalon de montanha. Por isso nunca ousei esquiar. E o Padel não será excepção. Por isso, durante o ano que precedeu a minha estreia na modalidade preparei o corpo e o quadro mental. Ainda antes de defender a minha tese de doutoramente, já estava a pedalar diariamente e, por sugestão do meu grande amigo de longa data Pedro Choy (renomado acupunctor, e pelo menos 5º Dan de Karate), iniciei a prática de outra modalidade que ignorava por completo, mas que mudaria por completo a minha condição física.Desta vez refiro-me a Indian Clubs (club como em golf club) que não explicarei no que consiste (terão de usar este link e ver com os próprios olhos). Mas prestem atenção. A progressão foi ponderada. Comecei com clubs de 2kg e depois, de 4kg e agora de 10kg, sempre alternando exercícios com cargas distintas. Ou seja, antes sequer de contemplar a prática de uma (nova) nova modalidade, estava obrigado a reunir as condições físicas e deter o quadro mental adequado. A perda do meu pai em fevereiro de 2025 acabou por conceder-me a força interior, a imagem de superação, de dor e glória, assim como a paixão — vectores que também desenham o compasso das nossas singelas vidas. Sei que para atingir altos voos, seja em que domínio for, devemos fazer coincidir o poder atlético, o intelecto, a técnica correcta, a disciplina e a ambição, de um modo continuado e sem reservas. A competição é sempre a solo, íntima. A busca pelo equilíbrio interior pode vir a exteriorizar-se por via da expressão morfofuncional que, a partir de certo nível, ganha contornos estéticos, de arte. Enfim, já estou a viajar, a sonhar. Regressando ao Padel, assumo-me como raquético. Analisei raquete após raquete até encontrar a que melhor se poderia adequar ao nível de principiante. E fui surpreendido. Portugal surpreendeu-me. Para além do número impressionante de praticantes em Portugal, de todas as idades e feitios, incluindo profissionais de topo, descobri duas fabricantes high-techartesanais de raquetes. São elas, por ordem aleatória,  a Cork Padel, a Quad. A escala singular destas duas marcas é a sua pedra angular. Não devem procurar conquistar o mundo. São produtos premium e exclusivos que oferecem aos praticantes seja qual for o seu nível. Essa medida de excepcionalidade limitada é o que torna valioso o bem oferecido, raro e especial. E a qualidade tem um preço naturalmente proporcional. Ainda bem que são duas as marcas confinadas ao mesmo espaço de competição. O padelismo só terá a ganhar com esta dupla de concorrência, de  excelência. Só tenho uma coisa a dizer — chapeau (chapéu, lob…) O Padel é de Portugal.

The Accidental Tourist Act (para inglês ler)…

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Albufera serves as a lamentable example — the local council has produced a laundry list of behavioural recommendations aimed at hooligan tourists, most of them British. One is almost tempted to laugh. Yet, since we seem to be in a no-nonsense mood regarding the Foreigners’ Law, let us address seriously — and firmly — the issue of violence and public disorder committed by foreign holidaymakers. Turismo de Portugal (the bureau in charge of tourism) bears a share of responsibility for the dramatic decline in the quality of the country’s tourism offering — you get what you pay for, after all. The grandiose notion of exponentially multiplying the number of flip-flop-wearing tourists, cobbled together in a slapdash fashion, has landed Portugal in the grip of an illusion of easy profit. A mob of drunken delinquents — pardon the bluntness — descends upon the country, tarnishing what Portugal still (emphasis on still) has left to offer. Let’s not dither. Let us address the politically and economically inconvenient truth head-on. Broke the law? Got violent? Shouted abuse? Showed contempt for the country and its people? Simple. A registry ought to be created for the wayward tourist, who, depending on the severity of the offence, may lose the right to enter national territory, as per a clear framework of sanctions. If those Cockneys and company are in search of trouble, they’re welcome to parade down the streets of Brighton or Liverpool, chanting in their indecipherable accents. Enough. No more. And no — this is not the rhetoric of any particular political party. It’s common sense. It’s decency. And yes — it’s a wound.

photo credits: Metro News

 

Lei do turista acidental

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Serve de fraco exemplo a cidade de Albufeira — avança a autarquia com um rolo de recomendações de bom comportamento para turistas-hooligans, na sua maioria britânicos. Dá vontade de rir. Já que estamos numa de tira-teimas no que diz respeito à Lei dos Estrangeiros, sejamos sérios e contundentes em relação ao fenómeno da violência e perturbação da ordem pública perpetrada por turistas forasteiros. O Turismo de Portugal é uma das entidades responsáveis pelo declínio acentuado do nível da oferta turística — o barato sai caro. A ideia grandiosa da multiplicação exponencial dos pés de turistas no chinelo, gizada às três pancadas, colocou Portugal à boleia da ilusão de ganhos rápidos. A corja de f…g drunken delinquents vem para estragar o bom que Portugal ainda (enfâse no ainda!) tem para oferecer. Sem demoras, vamos directo ao assunto política e moneytariamente inconveniente. Transgrediu? Agrediu? Insultou? Desrespeitou? Simples. Crie-se um cadastro para o turista acidental que, conforme a gravidade, perde o acesso ao território nacional de acordo com uma tabela de sanções. Esses cockneys e afins querem confusão? Façam-se à estrada de Brighton ou Liverpool entoando cânticos em pronúncias indecifráveis. Basta. Não mais. Para não usar a bandeira de uma força política que por aí anda. Chaga.

créditos fotográficos: Metro News

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